Às vezes, imaginamos que as grandes transformações dependem de acontecimentos extraordinários, de líderes capazes ou de um futuro que insiste em não chegar. Mas talvez tudo comece num gesto discreto: a decisão de não participar daquilo que sabemos estar errado.
Escrevi este ensaio pensando no poder de uma consciência que se recusa a seguir a multidão — e na possibilidade de que duas ou três pessoas, permanecendo fiéis ao que reconhecem como justo, abram uma brecha onde antes só havia conformidade.
Porque o futuro que desejamos talvez comece muito antes de chegar.
📖 Leia o ensaio “DUAS OU TRÊS”
Este soneto, EGERIA, nasceu de uma escuta — não de uma ideia pronta.
Escrevê-lo foi um exercício de contenção: retirar excessos, ouvir o ritmo, confiar no silêncio. Como a água, que não explica — permanece.
Convido você a ler este soneto com calma, como quem se aproxima de uma fonte antiga.
✒️ EGERIA
Ando cansado da fantasia da altura. Dessa mentira silenciosa de que subir torna alguém imune ao medo, ao vazio ou à própria queda. Não torna.
Quanto mais perto do alto, mais o vento exige equilíbrio.
Mais estreita fica a borda.
Tenho tentado limpar os excessos:
as antigas molduras,
as respostas prontas,
os discursos usados para esconder o medo.
Quando tudo isso cai, sobra o osso.
No fim, é só isso:
o ofício de continuar.
Apesar.
Atravesse esse tema comigo.
Leia o texto: 🐾 A LEI DA ALTURA
Passei os últimos dias pensando numa coisa curiosa: a língua mais viva raramente nasce dos lugares que tentam conservá-la.
Nasce do improviso.
Do erro repetido.
Da piada interna.
Do apelido sem origem.
Da palavra torta que alguém inventa sem querer —
e, de repente,
já virou patrimônio afetivo de um grupo inteiro.
Talvez toda gíria seja uma pequena gambiarra contra o excesso de formalidade.
Talvez falar seja, no fundo, adaptar o idioma à temperatura da vida real.
Escrevi um texto sobre isso.
Sobre as palavras que escapam da norma e acabam dizendo mais do que muito discurso.
Tem gente que nasce sabendo amar.
Outros aprendem a sobreviver ao curto-circuito.
Esse poema nasceu da sensação de que certos afetos não acabam de uma vez — vão queimando aos poucos, fazendo ruído dentro da parede, pedindo manutenção onde talvez já fosse caso de desligar a chave geral.
Escrevi pensando nessa mistura estranha de cansaço, humor e improviso emocional que muita gente chama de maturidade.
Às vezes, a gente não quer salvar nada.
Só impedir o incêndio.
Leia o poema completo:
🔧 OFICINA DA DESILUSÃO