Sempre me intrigou a ideia de que a saudade é um fantasma que só aparece depois que a porta se fecha.
Mentira.
A saudade mais devastadora é aquela que se senta à mesa conosco, que bebe do nosso vinho e nos observa enquanto ainda estamos acompanhados.
É a saudade do agora.
Escrever "UM GOLPE CRUEL" foi uma tentativa de capturar esse paradoxo. É um poema sobre como guardamos o rosto de quem amamos no lugar mais profundo e definitivo que possuímos.
Se você também já sentiu o peso do vazio,
convido-o a ler estes versos.
Há dias em que a cidade inteira cabe numa sacada. Foi o que fiz ontem: deixei que a folia viesse até mim — em corpos, em cheiros, em silêncios.
De um lado, o samba que mexia a multidão. Do outro, o beijo anônimo, rápido, afogado no calor e no perfume da noite.
Num canto mais quieto, o olhar demorado de um casal que já não dança no ritmo da bateria — mas dança.
O poema, às vezes, é isso: um jeito de estar dentro e fora ao mesmo tempo.
Leia o haibun:
👉 VARANDA DA FOLIA
Hoje publiquei um poema que não nasce pronto — ele se ergue.
Começa com um ponto. Um grão. Um silêncio mineral.
Depois, letra sobre letra, a palavra se constrói como monumento.
Mas nenhum monumento escapa ao tempo.
Interessei-me menos pela pirâmide como forma estável e mais pelo que acontece quando a linguagem começa a rachar. Quando a ortografia falha. Quando o centro se desloca. Quando a solidez vira dispersão tipográfica.
Quis que o leitor visse a construção —
mas sobretudo que percebesse a ruína.
A palavra, afinal, é pedra.
E também é areia.
Se você quiser acompanhar essa arquitetura em processo,
convido à leitura do poema completo:
👉 PIRÂMIDE
Há buscas que não nascem da esperança, mas de um luxuoso desespero. Ao revisitar a mítica figura que sobe a escadaria rumo ao eterno, percebi que ela não é uma viajante, mas uma prisioneira de sua própria heresia.
Nesta reinterpretação, despi a personagem de suas vestes folclóricas para vesti-la com o veludo pesado da tradição gótica.
"HERESIA DA ASCENSÃO" é um exercício sobre o vazio. No decassílabo, encontrei a marcha fúnebre necessária para descrever essa mulher. Ela não sobe para encontrar a luz; ela sobe para se tornar o próprio abismo, coroada em um trono de espelhos onde Deus é apenas uma ausência que brilha.
É um convite para olhar o que resta quando a ambição espiritual se torna apenas vaidade estética.
Convido você a subir esses degraus de sombra e encarar o que nos espera no último patamar.
Este poema nasceu da suspeita de que alguns territórios não aparecem nos mapas porque foram apagados antes de serem nomeados. Não por acaso, a cartografia aqui é menos geográfica que ética: trata do lugar onde a Justiça naufraga, onde o ar é medido, onde o grito aprende a esperar.
Ao escrevê-lo, busquei uma linguagem que não denunciasse apenas os tiranos visíveis, mas também os mecanismos discretos — o silêncio cultivado, a usura normalizada, a respiração coletiva interrompida.
O épico, neste caso, não é o do herói, mas o do ato mínimo e decisivo: voltar a falar, voltar a respirar, voltar a ouvir.
“CARTOGRAFIA DO GRITO” não oferece salvação externa. Ele insiste numa ideia simples e incômoda: o mapa está incompleto porque nós o estamos. E talvez escrever ainda seja uma forma de traçar linhas onde só havia branco.
Leia o poema completo: