Poesia por Alves Batista
Não me peça que demore o olhar
No agora que escorre pelos dedos,
Pó de areia que o vento vem levar
Antes que se desfaça em medos.
Já te perco na hora em que te vejo,
Qual despedida cravada sob a pele:
O amanhã corrói o próprio desejo,
Deixa amargo no centro do teu mel.
Teu riso irrompendo em cachoeira,
Tua mão adormecida no meu peito,
Tua língua, incêndio e brincadeira
No sal do meu terreno imperfeito.
Corpos rolando à meia-luz macia,
Trovão que a noite inteira consuma,
Pele que exala o calor da rebeldia,
E logo se quebra em tênue espuma.
Chora, se for preciso — mas demora,
No travesseiro ainda quente e vivo;
Guarda meu cheiro até que a aurora
Te arranque o céu do sonho furtivo.
E quando a falta for teu corpo inteiro
Pesando no íntimo vazio do teu lado,
Que esta secura funda, golpe certeiro,
Seja o meu nome em ti entranhado.
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