Poesia Gótica por Alves Batista
Na torre fria de um deserto antigo,
A dama compra o acesso ao firmamento;
Não busca a paz, mas foge do castigo
De ser apenas carne e esquecimento.
Suas tranças de fogo ardem no escuro,
Tecendo o aço em seda, o medo em glória.
Ergue entre os mundos um imenso muro,
Feito do pó de uma fútil vitória.
"O ouro é cinza", diz a voz do vento,
Enquanto a flauta sopra um lamento ímpio.
Cada degrau é um novo isolamento,
Cada desejo, um fúnebre precipício.
Traz no semblante a paz de uma lousa,
Mas guarda a guerra sob o peito mudo.
É como um pássaro que nunca pousa,
Pois sendo sombra, deseja o tudo.
O sino dobra em bronze e agonia,
Saudando o passo frio de metal e tédio.
A alma, em penhor da própria heresia,
Busca no abismo o seu único remédio.
No fim da escada, o espelho é o paraíso,
Onde ela reina em solidão profunda.
Não há o céu, nem Deus, nem o sorriso,
Só a vaidade que no vácuo inunda.
Rainha morta em trono de quimera,
Metade luz, metade abismo imenso.
A dama é a busca que se desespera,
Queimando a vida em ritual suspenso.

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