Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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CARTOGRAFIA DE UM GRITO

Poema Épico por Alves Batista


 

Não há mapa que assinale este lugar.

É uma mancha branca, uma ausência

que se expande — um continente de ar

onde a Justiça naufragou, paciente.

 

Os rios deste sítio correm ao contrário:

levam os peixes vivos para a nascente.

A boca humana é um sarcófago ordinário,

o protesto, um osso na garganta,

fóssil que nem os séculos devoram.

 

Chamam-lhe covardia os cartógrafos distantes.

Eu chamo: solo onde a semente mora

antes de romper a terra — um medo puro

que cria raízes surdas, sob a usura,

e delas brota o fruto do infortúnio:

o Tirano Obscuro,

coroado de sombras e de juros.

 

Eu, topógrafo do impossível,

traço meridianos com sangue próprio

e inscrevo no papel, em letras de fogo:

AQUI DEUS É UM VERBO.

 

Não o nome entalhado em mármore frio,

mas o Verbo em ato — o Virá:

a única profecia que não mente,

porque se cumpre no desejo

e na geometria íntima da esperança.

 

Ele não descerá em nuvens.

Não haverá trombetas.

Surgirá do fundo mais plano,

do silêncio mais denso:

o primeiro grito a rachar

o gelo unanimemente mudo,

fenda de azul no branco total.

 

Por ela entrará o ar

banido deste mapa.

 

E a democracia, planta proibida,

erva rude de raiz profunda,

há de romper o asfalto da mentira.

 

Não será reinado, nem coroa.

Será respiração coletiva:

o simples ato de voltar ao fôlego

após séculos de ar contado.

 

Leitor, tu que observas este mapa:

a mancha branca também te habita.

O exílio da justiça começa

no silêncio que escolhes cultivar.

 

O salvador não vem de fora.

É um grito que espera, geológico,

no subsolo da tua própria garganta.

 

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 16/02/2026
Alterado em 18/02/2026
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