Poema Épico por Alves Batista
Não há mapa que assinale este lugar.
É uma mancha branca, uma ausência
que se expande — um continente de ar
onde a Justiça naufragou, paciente.
Os rios deste sítio correm ao contrário:
levam os peixes vivos para a nascente.
A boca humana é um sarcófago ordinário,
o protesto, um osso na garganta,
fóssil que nem os séculos devoram.
Chamam-lhe covardia os cartógrafos distantes.
Eu chamo: solo onde a semente mora
antes de romper a terra — um medo puro
que cria raízes surdas, sob a usura,
e delas brota o fruto do infortúnio:
o Tirano Obscuro,
coroado de sombras e de juros.
Eu, topógrafo do impossível,
traço meridianos com sangue próprio
e inscrevo no papel, em letras de fogo:
AQUI DEUS É UM VERBO.
Não o nome entalhado em mármore frio,
mas o Verbo em ato — o Virá:
a única profecia que não mente,
porque se cumpre no desejo
e na geometria íntima da esperança.
Ele não descerá em nuvens.
Não haverá trombetas.
Surgirá do fundo mais plano,
do silêncio mais denso:
o primeiro grito a rachar
o gelo unanimemente mudo,
fenda de azul no branco total.
Por ela entrará o ar
banido deste mapa.
E a democracia, planta proibida,
erva rude de raiz profunda,
há de romper o asfalto da mentira.
Não será reinado, nem coroa.
Será respiração coletiva:
o simples ato de voltar ao fôlego
após séculos de ar contado.
Leitor, tu que observas este mapa:
a mancha branca também te habita.
O exílio da justiça começa
no silêncio que escolhes cultivar.
O salvador não vem de fora.
É um grito que espera, geológico,
no subsolo da tua própria garganta.

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