Ensaio por Alves Batista
E se a transformação que esperamos não for um destino, mas uma responsabilidade do presente?
Costumamos situar as grandes mudanças morais num “um dia”: quando as instituições melhorarem, quando surgir um líder à altura, quando as circunstâncias deixarem de atrapalhar. A espera consola, e por isso mesmo é perigosa. Olhar apenas para adiante nos exime do que podemos fazer agora; a esperança, então, torna-se um álibi.
Há contra isso uma objeção honesta, que convém enfrentar. A injustiça estrutural não cede à boa conduta de uma pessoa, e quem se sente impotente diante dela muitas vezes tem razão. Recusar a cumplicidade custa emprego, segurança, às vezes amizades. Tampouco se trata de abandonar o horizonte: sem ele, a integridade vira heroísmo solitário e sem rumo. O ponto é outro: nenhuma estrutura muda enquanto a colaboração for unânime.
Imagine alguém num escritório, pressionado a assinar um relatório que sabe ser falso. Todos ao redor assinam; o hábito e o medo pesam. Se ele recusar, a empresa não cairá, e talvez ele pague caro. Mas algo se altera: a mentira deixa de ser unânime. O colega que hesitava ganha um precedente, e quem assinou descobre que havia outra saída. A recusa não garante vitória alguma, mas torna possível o que parecia impensável.
A cegueira talvez consista em tomar a impotência por destino. A fraqueza talvez esteja em temer o preço de viver conforme aquilo que já reconhecemos como certo.
O futuro melhor não chega de repente: é praticado toda vez que alguém decide não ser cúmplice do que todos repetem sem pensar. Onde quer que duas ou três consciências se recusem a se dobrar, ele já existe.
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