Poesia por Alves Batista
Minha chave sumiu na gaveta da pressa.
Nunca fui bom com ferramentas —
só sei fazer uma coisa:
desengatar o que já chega retorcido
e espalhar os estragos na mesa
como quem reconhece a ferrugem pelo cheiro.
Coração partido é curto-circuito.
Saudade nunca foi o defeito.
É o cobre exposto.
O sobressalto.
O toque enviesado.
Encosta de leve: descarga.
Não encosta: a luz cansa
e apaga. Pronto.
Não cobro visita, só café requentado.
Não me pergunta se volta.
Só faço o meu serviço.
Milagre é setor terceirizado.
Primeiro desligo a chave geral.
Silêncio também é ferramenta.
Arranco o ruído,
o zinabre fino do “e se”,
crescendo por trás da parede.
Depois vem a fita isolante —
cor de poeira.
Nunca preta, nunca vermelha.
Desculpa remendada.
Conserto bom é sem discurso.
Só impede o incêndio.
Ninguém precisa saber
o quanto a estrutura cedeu
antes do estalo.
Se o motor ligar tossindo fumaça,
feito panela de pressão
com nome de ex fervendo dentro:
desliga.
Abre a janela.
Respira até a garganta soltar.
Tenta amanhã.
Ou aprende o luxo
de deixar queimado.
Depois das dez
não subo no forro.
Toda tragédia parece urgente
antes do sono
e amansa depois do sol.
Só não me chama
pra salvar de novo
aquilo que você desatina
todo dia e insiste
em chamar de destino.

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