Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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OFICINA DA DESILUSÃO

Poesia por Alves Batista


 

Minha chave sumiu na gaveta da pressa.

Nunca fui bom com ferramentas —

só sei fazer uma coisa:

desengatar o que já chega retorcido

e espalhar os estragos na mesa

como quem reconhece a ferrugem pelo cheiro.

 

Coração partido é curto-circuito.

Saudade nunca foi o defeito.

É o cobre exposto.

O sobressalto.

O toque enviesado.

Encosta de leve: descarga.

Não encosta: a luz cansa

e apaga. Pronto.

 

Não cobro visita, só café requentado.

Não me pergunta se volta.

Só faço o meu serviço.

Milagre é setor terceirizado.

 

Primeiro desligo a chave geral.

Silêncio também é ferramenta.

Arranco o ruído,

o zinabre fino do “e se”,

crescendo por trás da parede.

Depois vem a fita isolante —

cor de poeira.

Nunca preta, nunca vermelha.

Desculpa remendada.

 

Conserto bom é sem discurso.

Só impede o incêndio.

Ninguém precisa saber

o quanto a estrutura cedeu

antes do estalo.

 

Se o motor ligar tossindo fumaça,

feito panela de pressão

com nome de ex fervendo dentro:

desliga.

Abre a janela.

Respira até a garganta soltar.

Tenta amanhã.

Ou aprende o luxo

de deixar queimado.

 

Depois das dez

não subo no forro.

Toda tragédia parece urgente

antes do sono

e amansa depois do sol.

Só não me chama

pra salvar de novo

aquilo que você desatina

todo dia e insiste

em chamar de destino.

 

 

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 18/05/2026
Alterado em 18/05/2026
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