Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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Textos

A LEI DA ALTURA

Por Alves Batista


 

Meus pés aprendem o ofício da corça

num vale de espelho partido.

A força mora no músculo da fuga.

O abismo sobe comigo.

 

Dizem que existem lugares altos —

mas o chão ainda sabe meu nome.

A tribulação dorme no meu quarto.

Atrás da porta, a tentação sibila.

 

Há uma física cruel na vertigem:

ela começa por dentro.

A corça não evita o vale.

Atravessa.

E aprende:

o predador também sangra.

 

Mais fundo, mais rasgado —

cada passo sobe contra a carne.

A desilusão é o único solo

que não mente.

 

Então ando. Não acima —

apesar.

Com os cascos feridos na pedra.

Os joelhos se dobram

antes do salto.

Mais alto —

mas o topo não elimina o fundo.

É preciso fincar o casco no poço

até o poço virar monte.

 

Porque a única altura que não trai

não é o cume.

É o músculo que avança

quando a gravidade sussurra:

 

“Desça.”

 

E os pés da corça respondem:

 

“Ainda não.”

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 29/05/2026
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