Por Alves Batista
Meus pés aprendem o ofício da corça
num vale de espelho partido.
A força mora no músculo da fuga.
O abismo sobe comigo.
Dizem que existem lugares altos —
mas o chão ainda sabe meu nome.
A tribulação dorme no meu quarto.
Atrás da porta, a tentação sibila.
Há uma física cruel na vertigem:
ela começa por dentro.
A corça não evita o vale.
Atravessa.
E aprende:
o predador também sangra.
Mais fundo, mais rasgado —
cada passo sobe contra a carne.
A desilusão é o único solo
que não mente.
Então ando. Não acima —
apesar.
Com os cascos feridos na pedra.
Os joelhos se dobram
antes do salto.
Mais alto —
mas o topo não elimina o fundo.
É preciso fincar o casco no poço
até o poço virar monte.
Porque a única altura que não trai
não é o cume.
É o músculo que avança
quando a gravidade sussurra:
“Desça.”
E os pés da corça respondem:
“Ainda não.”
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