Por Alves Batista
Gíria não nasce.
Escapa.
Vaza da boca quente do ônibus,
da mesa de bar molhada de domingo,
do cimento rachado da quebrada.
Surge torta,
sem certidão nem gramática,
mas chega mandando na frase inteira.
O brasileiro tem esse vício bonito de desmontar palavra e devolver outra coisa.
Pega o *crush*, mistura desejo, deboche e exagero,
e devolve: “o tampa de crush”.
Pronto.
Virou sentimento em modo amplificado.
Assombro com CPF.
Tem palavra que vira abraço.
“Mermão”, no Rio,
significa mais que irmão de sangue.
É pacto rápido.
É carinho de casca grossa.
No Sul, o “tri” bate em tudo que vê.
Tri bom. Tri triste. Tri caro.
Uma sílaba pequena fazendo hora extra na emoção dos outros.
E no Nordeste o povo inventou o “visse?”,
essa palavrinha que não pergunta — puxa.
“Tu vai, visse?”
Quando percebe, você já foi.
Belém resolveu economizar frases inteiras dentro de um “égua”.
Susto, raiva, encanto, calor, caos.
Tudo espremido ali,
cabendo numa sílaba só.
Tem também as gírias que parecem nascer às três da manhã,
depois de alguém rir demais:
“paia”, “fuleiro”, “sem neurose”.
“Biscoiteiro”, “chamar no talento”, “meter o louco”.
Nenhuma delas precisava existir.
Ainda bem que existem.
Porque a gíria não quer pureza.
Quer presença.
Ela suja o sapato da língua só pra lembrar
que idioma vivo não flutua — pisa no chão.
“Pivete” já foi ofensa séria;
hoje soa quase carinhosa.
Até “mano” cansou de significar irmão.
Virou pausa dramática,
pedido de socorro,
pontuação afetiva:
“Mano…”
E o resto da frase já chega emocionado.
Nenhuma língua séria produziria um negócio como “sextou”.
Talvez o português mais verdadeiro não esteja nas páginas limpas do dicionário.
Esteja na conversa atravessada,
no apelido sem origem,
no erro repetido até virar regra.
A língua culta organiza.
A rua eletrifica.
E o brasileiro,
no meio disso tudo,
segue fazendo o que sempre fez:
gambiarra verbal de altíssima qualidade.
Mas fala aí…
cê fechou com a ideia ou tô na Disney?
Aviso de Direitos Autorais
Todo o conteúdo deste texto é protegido pela Lei nº 9.610/98. Sua reprodução, adaptação ou uso sem a devida atribuição ao autor é proibida e pode resultar em ações legais. Para uso autorizado, entre em contato com o autor.