Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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A ESTRELA, O FEITIÇO E O SANGUE

Conto de Fantasia por Alves Batista


 

A Cidade

Nenhum mapa registra o reino onde ele serviu. Os poucos que tentaram desenhá-lo acabaram riscando por cima.

Ele chegou ao fim das estradas conhecidas ao cair da tarde, quando a luz ainda sustenta formas. A cidade surgiu sem anúncio — pedra escura, muros baixos, torres sem bandeiras — e, acima dela, uma única estrela imóvel, branca demais para pertencer ao mesmo céu.

Ele parou antes do portão.

Não havia guardas. Nem inscrições. Nem sinais de abandono. Ainda assim, demorou. Quando atravessou, o som dos próprios passos pareceu deslocado.

As ruas estavam vazias, não mortas. Havia marcas recentes nas portas, tecidos nas janelas, uma lâmpada acesa ao fundo de um corredor estreito. Uma panela ainda fervia em fogo baixo, esquecida. A cidade não estava deserta — apenas recolhida.

Ele seguiu sem direção clara. As ruas, no entanto, se abriam diante dele com uma precisão que impedia a escolha. Em cada encruzilhada, apenas um caminho parecia real; os demais recuavam como miragem.

Quando percebeu, estava diante de um palácio.

 

O Trono

Não havia ornamento, apenas escala. Pedra antiga, lisa pelo tempo, com um portão entreaberto que não rangia.

Hesitou um instante antes de entrar.

O salão era amplo, sustentado por colunas que pareciam mais gastas pelo uso do que pela idade. No fundo, sob a abertura do teto por onde a estrela despejava sua luz fixa, havia um trono. E, nele, alguém.

Ela não se moveu quando ele se aproximou. Não houve surpresa, nem gesto de recepção. Ainda assim, a sensação de que sua chegada fora notada — talvez muito antes — tornou o ar mais espesso.

— Este lugar tem dono? — perguntou.

Ela levantou os olhos. Não havia nada de extraordinário neles à primeira vista. Ainda assim, sustentar aquele olhar exigia mais do que ele esperava.

— Tem — disse.

A voz não ecoou no salão. Ficou, no entanto, como uma presença adicional.

Ele assentiu, tentando reorganizar o próprio corpo dentro daquela resposta.

— Há espaço para mais um?

Ela o observou por um tempo que não parecia medido pelo relógio, mas por algo mais lento, mais antigo.

— Há espaço — disse, por fim. — Não há saída.

Ele sorriu. Um movimento seco dos lábios, sem humor.

 

O Quarto

Instalou-se em um dos aposentos laterais. Encontrou uma cama limpa, água em uma bacia de pedra e roupas que não lembrava de ter trazido. Dormiu mal naquela primeira noite. Acordou várias vezes com a impressão de que havia alguém no quarto.

Ao sair, pela manhã, a estrela ainda estava no mesmo ponto do céu. Distante. Imóvel.

Os dias passaram sem que ele soubesse exatamente como contá-los. Tentou impor rotina. Caminhava pelas ruas, marcava trajetos, observava detalhes. Descobriu os habitantes: poucos, discretos, sempre ocupados com tarefas simples. Uma mulher varria o mesmo trecho de calçada há anos, pelos gestos. Um homem carregava água de um poço que nunca se esvaziava. Nenhum sustentava o olhar por muito tempo.

Quando falavam, era apenas o necessário. Ninguém mencionava o palácio.

 

O Calor

Certa manhã, ele se aproximou da mulher que varria.

— Há quanto tempo está aqui?

Ela parou o movimento por um instante. Apenas um instante.

— Sempre — respondeu.

Retomou a vassoura.

Ele tentou tocá-la no braço. O gesto foi leve, quase sem intenção. Mas o que sentiu foi estranho: uma superfície lisa, sem poros, como vidro aquecido ao sol.

A mulher não reagiu. Continuou varrendo, e ele percebeu, então, que ela não o viu. Não o via há muito tempo.

Afastou-se com o corpo mais pesado.

 

O Portão

Na terceira noite, decidiu sair. Atravessou a cidade sem olhar para trás e alcançou o portão com uma determinação que lhe pareceu sólida o suficiente para não ser questionada.

Do outro lado, não havia estrada, nem campo, nem qualquer continuidade do mundo. Apenas uma extensão pálida, sem relevo, sem horizonte definido.

Permaneceu algum tempo observando. Esperou que os olhos se ajustassem, que algum detalhe emergisse. Nada. Apenas o branco, liso, incontornável.

Quando voltou, ela já não estava sentada. Estava de pé, no centro do salão.

— Você pode ir — disse.

Ele abriu a boca para responder. Percebeu, no mesmo instante, que não havia resposta possível que não soasse falsa.

Olhou novamente para fora.

Depois, para ela.

— Não posso — disse, por fim.

Ela assentiu com leveza.

 

O Desfazer

Depois disso, o sono foi o primeiro a falhar.

Ele se deitava, fechava os olhos, mas o corpo permanecia em vigília — alerta. No terceiro dia sem dormir, tentou comer. Mastigou pão seco, mas a garganta não colaborava. Cuspiu no prato. O pão permanecia intacto. Seus dentes pareciam incapazes de alterá-lo.

Passou a riscar os dias na parede do quarto. No sétimo risco, percebeu: a luz já não obedecia à contagem. A manhã chegava escura. A noite, clara demais. O tempo havia perdido contorno, e ele já não sabia dizer se os riscos na parede eram muitos ou poucos.

Às vezes, respirava fundo e sentia que o ar não ocupava espaço suficiente dentro do peito.

Tentou se distrair com os outros habitantes. Buscou a mulher da vassoura, o homem do poço, qualquer rosto que lhe devolvesse algum reconhecimento. Mas eles passavam por ele como se já fosse feito do mesmo vidro morno que os constituía.

Calor sem profundidade.

Calor que não reconhecia.

 

A Assinatura

E então, numa manhã — ou talvez fosse noite — acordou com as mãos manchadas de sangue.

O corte era fino, preciso, atravessando a palma esquerda. Não lembrava de tê-lo feito. Não doía. Não cicatrizava.

Na noite seguinte, a linha voltou a abrir. Fina. Precisa. Como se algo dentro dele exalasse por aquela fenda.

Na sétima vez, ele parou de limpar o sangue.

Foi então que entendeu: não era ferida. Era assinatura.

 

A Rendição

Levantou-se e caminhou até o salão sem hesitar.

A estrela, acima, parecia mais próxima.

Ela estava no trono, mas não o esperava. Estar ali lhe bastava.

— Venho pedir demissão — disse. A voz saiu mais calma do que ele previra.

— De quê? — perguntou.

— Da resistência.

Ela o observou com mais atenção do que antes.

— Você demorou.

Ele soltou um ar breve. Quase um riso.

— Eu precisava acreditar que havia escolha.

Ela não respondeu imediatamente. Desceu do trono com um movimento que não alterou o silêncio, mas alterou algo no espaço ao redor.

Aproximou-se.

— E agora?

Ele olhou para as próprias mãos. Para a linha escura na pele, já seca, já antiga.

— Agora não preciso mais.

Ela estendeu a mão.

Não tocou.

Ainda assim, algo nele cedeu. Não quebrou — ajustou. Como vértebra que encaixa depois de muito tempo fora do lugar.

Ele caiu de joelhos. Dessa vez, sem surpresa. Sem resistência. A pedra fria contra as canelas. O peso do próprio corpo, pela primeira vez, distribuído sem luta.

— Então fique — disse ela.

A cidade respondeu. Não com som. Com um fechamento — algo que se alinhou nos limites, nas frestas, nos lugares onde a realidade poderia ter escapado. Agora, não escapava.

Ele permaneceu de joelhos por tempo suficiente para esquecer que estivera de pé.

O medo ainda estava ali. Mas já não apontava para fora. Pertencia ao mesmo lugar que ele.

 

A Linha e a Estrela

Com o tempo — se é que ainda havia tempo — deixou de evitar o salão. Aprendeu os caminhos, as pausas, a maneira como a cidade se movia sem parecer mover-se. Nunca perguntou o nome dela.

Os habitantes continuaram suas tarefas. A mulher varria. O homem carregava água. Nenhum o reconhecia, e ele deixou de esperar que reconhecessem.

Às vezes, ainda pensava em partir. Imaginava o que poderia existir além daquele vazio. A imagem surgia insistente, depois cedia. Sem consequência.

Ele não foi salvo. Não foi libertado.

Apenas — enfim — parou.

 

O Sangue e o Silêncio

Naquela noite, a linha em sua palma voltou a abrir com precisão. Não tentou estancar. Ficou ali, observando o sangue escorrer devagar, enquanto, acima, a estrela permanecia imóvel.

Abaixo da estrela, ela o observava. Não havia vitória em seu olhar. Nem compaixão. Apenas o reconhecimento de que aquilo que o prendia ali já estava nele antes dele chegar — e que ele, agora, sabia.

Ele não perguntou por que.

Ela não precisou responder.

O sangue continuou escorrendo, e o silêncio entre eles, habitável.

 

 

 


 

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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 26/03/2026
Alterado em 27/03/2026
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