"Palavra boa é um passarinho:
não se prende — deixa pousar."
— Alves Batista
Metapoema por Alves Batista
Na minha inspiração te procurei,
pela noite adentro te perscrutei.
Abri a janela, questionei o muro,
no sereno ralo, ilusões no escuro.
Revirei então os livros empilhados,
apenas vãos vestígios encontrados.
O dicionário insinuava a tua senha,
mas tua cifra permanecia ferrenha.
O canto do galo tingiu o céu pastel,
estendendo nuvens ralas em cordel.
E quando um raio do sol se soltou,
os pássaros noticiaram: o dia raiou.
Na aurora esbelta, um som distinto,
singelo, revelou um instante sucinto.
Entre as folhas novas de um arbusto,
dois curiós já ornavam o lusco-fusco.
Minha mente revirada se iluminou,
lá no fundo algo secreto se revelou:
a tácita, arteira, que ali se ocultara.
Cabrocha perfeita, eu te encontrara.
O cheiro do café pregou o novo dia,
e eu, como criança, cedia à alegria.
O verso afinal rompeu sua amarra,
abrindo-se em si: a penosa palavra.

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