Mulher negra que não se curva — dobra o mundo
Poema Social por Alves Batista
Nzinga.
Rainha de facão e luar:
incendiou a noite do Atlântico,
plantou fogo no chão angolano,
colheu tempestades
— e as fez dançar.
Seu trono?
Não é madeira.
É pele estendida,
sangue em marcha,
o corpo que dobra o ferro da cruz.
(Enquanto homens confundiam ferro com fé,
ela empurrava canhões
para o fundo do silêncio.)
Ê, Nzinga!
Mãe de Matamba,
ensinaste a dança da queda que não se aceita:
— Cadeira?
Sentaste no lombo vivo da irmã.
— Trono?
"Este povo é minha coroa:
língua, faca, sopro.
Indomável."
Nzinga.
Teus passos, sal, sangue, semente,
fincaram chão novo no asfalto.
Viraste verbo:
ginga que dobra a dor,
faca que canta no escuro,
corpo que se faz reino.
Hoje, teu rosto é labareda:
— na ginga das quitandeiras,
— no quadril das passistas,
— no comando das mães de santo
(que coroam a rua).
Nzinga, não estás nos livros,
és o punho cerrado da favela,
a criança que rompe o silêncio,
a mulher que abre a boca
e liberta
um rugido de faca.
Rainha sem cemitério:
tua coroa é de fogo e dendê,
teu cetro, um facão de açúcar e sangue.
E o reino?
É este corpo negro
que dança —
sempre Nzinga.
Ouça a música:
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