Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Perfil Livro de Visitas Contato
Textos

RASTROS DO ETERNO 04 — A fé de uma mãe

Baseado em Êxodos 2

Por Alves Batista


 

O Nilo não era apenas um rio — era um decreto em movimento.

Águas que carregavam ordens de morte, ecos de um poder que temia futuros ainda sem nome.

 

“Todo menino hebreu será lançado no rio”  — Êxodo 1:22

 

O medo tinha correnteza.

Joquebede segura o filho nos braços. Ainda não se chama Moisés — é apenas choro contido, calor de pele, peso de amor.

Três meses ela o escondeu, como diz a Escritura, porque “viu que era formoso” — Êxodo 2:2.

Mas não era só beleza: era vínculo. Era o instinto de mãe que protege, cala, vigia a respiração do filho enquanto o mundo ameaça ruir do lado de fora.

Ela conhece esse sentimento:

o desejo de segurar para sempre,

de fazer do colo um abrigo eterno,

de acreditar que amar basta para deter o mal.

Mas a fé — quando amadurece — ensina algo mais doloroso. Joquebede entende que não pode lutar contra o decreto com força, nem esconder para sempre aquilo que nasceu para viver. Então ela faz algo que nenhuma mãe faz sem lágrimas: prepara a despedida.

Tece um cesto de junco, calafeta com betume e piche, como quem prepara não um barco, mas uma oração silenciosa.

 

“colocou nele a criança, e o pôs entre os juncos à beira do rio” — Êxodo 2:3

 

Ela não entrega o filho ao Nilo.

Entrega à Providência.

 

Amar não é segurar — é discernir quando abrir as mãos.

 

Soltar não foi ausência de amor; foi a forma mais alta dele.

Joquebede não abandona — ela confia.

Não cruza os braços — cruza o limite do controle.

E o rio, que deveria ser túmulo, torna-se berço. A filha de Faraó vê o cesto, compadece-se da criança e a história da libertação começa exatamente ali, num gesto de mãe que amou o suficiente para soltar — Êxodo 2:5–10

 

Hoje, a pergunta permanece aberta:

o que estamos tentando proteger com as mãos fechadas

quando Deus nos chama a confiar com as mãos abertas?

 

Às vezes, aquilo que chamamos de perda

é apenas o início de uma história que não podemos conduzir sozinhos.

 

Deus continua escrevendo resgates

com aquilo que ousamos colocar no rio da confiança.

 

 

 

Tempus revelat

 

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 09/05/2026
Comentários