Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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ONDE O CHÃO NÃO AGUENTA

Relato por Alves Batista


 

     Em janeiro de 1998, eu tinha vinte e dois anos, havia acabado de me formar e começava como estagiário. Na época, me envolvi com minha supervisora, que tinha 31 anos anos.

 

     O primeiro episódio que me chamou atenção aconteceu numa terça-feira. Estávamos dentro do meu carro, um Corsa 96, quando ela pediu para que eu a levasse para dançar em algum lugar mais agitado. Acabamos indo para um salão de beira de estrada, simples, com estrutura precária. Lá, ela dançou de forma muito intensa, o que me marcou naquele momento.

 

     Com o tempo, percebi um padrão no comportamento dela. Havia períodos curtos de tranquilidade, seguidos por momentos mais impulsivos. Durante a madrugada, ela costumava me chamar com mensagens curtas, e eu ia ao encontro dela. Nosso relacionamento era baseado mais em intensidade do que em compromisso.

 

Depois dos encontros, ela dizia que deveríamos “pedir perdão” no dia seguinte, mas isso nunca acontecia. A dinâmica entre nós se repetia sem mudanças.

 

     Um dos episódios mais marcantes ocorreu em um bar. Ela usava o mesmo vestido da primeira vez que saímos. Durante a noite, ela se afastou de mim e foi dançar com outras pessoas. Eu permaneci no balcão observando. Em determinado momento, ela me olhou e fez um comentário sobre liberdade, sugerindo que cada um deveria lidar com seus próprios limites.

 

     O relacionamento terminou sem uma discussão específica. Na última vez que nos vimos, ela disse claramente que não pretendia mudar e que eu provavelmente permanecia naquela situação por acreditar que poderia ajudá-la. Também afirmou que não queria ser “salva”, apenas não queria ser ignorada.

 

     Depois disso, ela foi embora, e não mantivemos mais contato.

 

     Anos mais tarde, ao reler anotações antigas, percebo que hoje eu não repetiria aquela escolha. Não por uma questão moral, mas por reconhecer melhor meus próprios limites.

 

     Lembro também de um conselho que ouvi anos depois: nem tudo que aparece na vida de alguém é algo que precisa ser assumido ou resolvido.

 

 

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 04/05/2026
Alterado em 04/05/2026
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