Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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Textos

PRIMEVO

Por Alves Batista


 

I. O Nascedouro

Não do som, do Silêncio em febre,

irrompe a Luz, nervo antigo exposto.

Antes do Verbo: um pulso breve,

onde o Nada se escava no osso do mundo.

 

E a Alma, em vertigem escura:

“Toquei a pele onde o Infinito falha.

Do tremor que não se segura

nasceu um poema.

A noite o entalha.”

 

II. A Mancha

Vi no sonho a Multidão, mercúrio denso,

correndo sob lâmpadas sem manhã.

Bocas abertas — nenhum consenso,

um ritmo gasto, liturgia vã.

 

E a Alma, ainda em brasa, insistia:

havia um fio sob o ruído espesso,

quase voz,

mas feria no excesso.

 

E os Oráculos, frios, exatos:

“Tecemos ruído em fibra de tela.

O olho consome nossos dados,

e chama de forma aquilo que vela.”

 

III. A Profecia

E eu, o Profeta, com gosto de rua:

“Vinde — há erro mais alto que a crença.

Não o que ilude, o que continua

abrindo no homem a própria fenda.”

 

Ergui o Canto —

contra o que arrasta tudo.

Saiu baixo.

Quebrou na boca.

Quase —

 

Mas a Palavra — gota em metal —

toca, escorre e esfria.

O Culto repete, em círculo:

“Eco.

Centro vazio.

Nome sem corpo.

Rito.”

 

IV. Despedida

E o Silêncio, subterrâneo:

“Corro onde a cidade não vê.

Sou o avesso da mão humana,

o fundo que a palma não alcança”

 

E na praça, suspenso o alarde,

Alma e Silêncio se tocam, sem nó.

O canto, ferido, ainda arde —

não pleno,

mas vivo

no pó.

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 03/05/2026
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