Por Alves Batista
Não do som, do Silêncio em febre,
irrompe a Luz, nervo antigo exposto.
Antes do Verbo: um pulso breve,
onde o Nada se escava no osso do mundo.
E a Alma, em vertigem escura:
“Toquei a pele onde o Infinito falha.
Do tremor que não se segura
nasceu um poema.
A noite o entalha.”
Vi no sonho a Multidão, mercúrio denso,
correndo sob lâmpadas sem manhã.
Bocas abertas — nenhum consenso,
um ritmo gasto, liturgia vã.
E a Alma, ainda em brasa, insistia:
havia um fio sob o ruído espesso,
quase voz,
mas feria no excesso.
E os Oráculos, frios, exatos:
“Tecemos ruído em fibra de tela.
O olho consome nossos dados,
e chama de forma aquilo que vela.”
E eu, o Profeta, com gosto de rua:
“Vinde — há erro mais alto que a crença.
Não o que ilude, o que continua
abrindo no homem a própria fenda.”
Ergui o Canto —
contra o que arrasta tudo.
Saiu baixo.
Quebrou na boca.
Quase —
Mas a Palavra — gota em metal —
toca, escorre e esfria.
O Culto repete, em círculo:
“Eco.
Centro vazio.
Nome sem corpo.
Rito.”
E o Silêncio, subterrâneo:
“Corro onde a cidade não vê.
Sou o avesso da mão humana,
o fundo que a palma não alcança”
E na praça, suspenso o alarde,
Alma e Silêncio se tocam, sem nó.
O canto, ferido, ainda arde —
não pleno,
mas vivo
no pó.
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