Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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Textos

BARBA PÓSTUMA

PROSA POÉTICA POR ALVES BATISTA


 

O mito, por vezes, é o único retrato possível.

 

Foi um tropeiro. E sonhou.

Carregava nos lombos uma ideia solta, solitária, pesada como chumbo. Arrancava males da boca alheia; foi alferes — galão gasto na casaca, abrindo um caminho que já nascia velho. E, no entanto, quando a conjura esmoreceu e os letrados se calaram, foi ele — o mais pobre, o mais vil — quem subiu ao patíbulo.

Entre as onze e o meio-dia, numa praça do Rio, esquecida antes mesmo da história,

a corda estalou seca.

 

Depois, a degola.

 

O sal sobre a terra.

 

E o nome de Joaquim José, mordido pelo esquecimento ao longo de um século.

 

Até que a República, faminta de símbolos, o desenterrou.

Nas telas de Angelo Agostini, veio-lhe a barba. E o homem que subiu ao cadafalso, careca e desfeito, transfigurou-se em Cristo — barba hirsuta, olhar de absolvição.

 

Agora, a cada 21 de abril,

não celebramos um corpo esquartejado ao longo de uma estrada,

mas o milagre tardio do mito:

a terra que,

pisada,

floresce.

 

Afinal,

um herói só nasce no momento exato

em que o homem é pisado.

 

 

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 21/04/2026
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