Metapoema por Alves Batista
Escrevo como quem tenta segurar água
entre os dedos abertos.
(às vezes não seguro nada
e chamo de forma)
Chamo de “verdade” o que escapa menos,
ou o que repito
sem tremer muito.
No meio do caminho,
uma frase.
Não exatamente pedra —
mas pesa.
Ou eu peso nela.
Digo: isto fica.
E quase rio.
A caneta hesita,
coça o papel,
faz um risco que não era para ser,
e fica.
A frase já nasce com o meu peso,
com a inclinação da minha mão,
com um cansaço que não confesso,
mas aparece.
Quem lê encosta outro corpo no texto:
às vezes de leve,
às vezes nem encosta direito.
Respira por dentro das palavras,
ou atravessa rápido,
olha o relógio,
pensa em outra coisa
e já mudou tudo.
O que era pedra aprende a ser vidro,
ou racha.
O que era lei admite fissura.
O que era centro descobre margem
(tarde demais? talvez não)
E ainda assim insistimos, meio sem jeito:
há algo aqui que dura.
Talvez não seja o conteúdo,
talvez seja só
o gesto de voltar.
A dobra que chama outra dobra.
A pergunta que não fecha,
porque precisa continuar sendo feita,
mesmo mal feita.
No fim, é simples — ou não:
mão que escreve,
olho que falha,
tempo que entorta o punho.
Escrevo sabendo:
não inauguro — continuo.
(e continuo mal)
Leio sabendo:
não concluo — desvio.
(e às vezes nem percebo)
Chamamos de eterno
o que não se sustenta sozinho,
o que precisa de mãos sucessivas
— algumas distraídas —
para não desaparecer.
Um texto é menos monumento
do que superfície em uso.
(ou em desgaste)
E eu, agora, enquanto escrevo,
já me torno comentário
do que ainda não terminou de ser dito —
ou pior:
do que nunca vai terminar.
Fico aqui, então,
no meio do caminho,
sem resposta suficiente,
ajustando uma palavra,
apagando outra,
deixando um erro pequeno,
porque, talvez,
seja ele
que mantém tudo
em movimento.
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