Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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Textos

 

“O instante não floresce — irrompe.”

— Poema Carpe Diem

 


O PESO DO AGORA

Discurso por Alves Batista


 

Este texto nasce de uma inquietação antiga.

Alguns de vocês a reconhecerão.

Ela apareceu primeiro em versos.

Depois reapareceu nos comentários — nas leituras, nas interpretações, nas discordâncias silenciosas.

 

Percebi que o “agora” não era apenas tema de um poema.

Era uma pergunta aberta.

E talvez ainda seja.

 

Por isso começo da forma mais simples possível:

 

Onde você está agora?

 

Não fisicamente.

Eu pergunto de verdade.

Sua mente está aqui?

Ou está presa a algo que já passou?

Ou projetada em um amanhã que ainda nem tem forma?

 

Disseram um dia: colhe o dia.

 

Mas o dia não é pomar.

O dia não amadurece pendurado à espera da nossa coragem.

O dia é um animal inquieto

que não aceita rédea.

E quando tentamos segurá-lo pelo nome —

“agora” —

às vezes ele morde.

 

Vivemos correndo.

Atrás de prazos.

De reconhecimento.

De estabilidade.

De uma versão futura de nós mesmos que finalmente estará pronta.

E, nessa corrida, tratamos o presente como se fosse apenas um corredor

entre o que foi

e o que será.

 

Mas o presente não é passagem.

É impacto.

 

O agora tem peso.

Porque exige presença.

Exige escolha.

Exige que a gente sustente a própria consciência.

 

É fácil viver no passado.

A memória pode doer —

mas ela já aconteceu.

E a memória não é cárcere.

É cicatriz.

E também mapa.

 

É confortável viver no futuro.

Lá tudo ainda é promessa.

“Quando der tempo.”

“Quando eu estiver preparado.”

“Quando as coisas se organizarem.”

 

Mas o instante não floresce.

Ele irrompe.

E muitas vezes arde.

 

Difícil mesmo é viver aqui.

 

Porque é aqui que as palavras saem da boca e não voltam.

É aqui que um pedido de desculpas pode salvar — ou perder — uma relação.

É aqui que decidimos

amar ou nos proteger,

tentar ou recuar,

dizer ou silenciar.

 

Não existe rascunho de presença.

 

Cada gesto perde algo —

mas acende outro tanto.

Cada gesto também nos altera.

 

Não atravessamos o instante intactos.

E talvez seja por isso que preferimos adiá-lo.

 

Viver também gasta.

E isso assusta.

 

Talvez o medo não seja do tempo —

mas da intensidade.

Porque o instante não pede licença.

Ele atravessa.

E às vezes atravessa apenas para nos revelar.

E, se estivermos atentos, há fogo.

Não o fogo da destruição —

mas o fogo do sinal.

 

Sinal de que estamos vivos.

 

Muitos dizem que é preciso viver antes que acabe.

Mas talvez a verdade seja outra.

Talvez o dia nos colha

um a um

sem pressa.

E, enquanto respiramos,

ele nos pergunta — silenciosamente:

 

O que você fará com este instante?

 

Você não pode refazer o ontem.

Não pode controlar o amanhã.

Mas pode decidir quem é quando ele acontece.

 

A vida não acontece no passado.

Nem no futuro.

 

Acontece.

 

Neste instante inquieto.

Neste agora que pesa —

porque é real.

Porque não aceita ensaio.

Porque pode doer.

Mas que sustenta

tudo o que somos

e tudo o que ainda podemos ser.

 

Talvez o agora pese porque nos obriga a existir sem garantias.

 

Por isso volto ao início.

 

Onde você está agora?

 

Porque este momento —

exatamente este —

não amadurece.

Ele irrompe.

 

E já está passando.

 

Enquanto você lê.

 

 


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Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 26/02/2026
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