Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Perfil Livro de Visitas Contato
Textos

HERANÇA INSTALADA — CLTS 34

Conto/Terror por Alves Batista


 

Um apartamento que escuta

O apartamento no décimo quarto andar do edifício na Consolação era um espaço de transição, um limbo de concreto suspenso sobre a cidade. As paredes exibiam camadas de tinta acumuladas ao longo das décadas, sempre em variações de bege e branco. Do lado de fora, o trânsito de São Paulo subia em ondas abafadas.

Havia ali quietude que não se confundia com paz. Não era ausência de som, mas contenção. Ao atravessar a porta pela primeira vez, Judite sentiu essa escolha silenciosa agir sobre ela. O ar parecia mais espesso, ligeiramente mais frio.

A herança viera da tia, uma mulher solteira e discreta. Judite lembrava-se dela como alguém que falava baixo demais para ambientes grandes, mas alto demais para o silêncio. O apartamento refletia isso com precisão inquietante: nenhum móvel se impunha, nenhuma peça parecia essencial, e ainda assim tudo estava exatamente onde deveria estar.

Os móveis eram antigos. O sofá mantinha a forma original; a mesa de jantar exibia pequenos arranhões circulares. Judite passou a mão pelo encosto de uma cadeira e sentiu a aspereza deixada por tentativas repetidas de polimento.

O cheiro era de madeira guardada, papel antigo e algo vegetal, seco. Na estante da sala, volumes de botânica ocupavam quase toda uma prateleira, as capas manchadas por mofo antigo.

Ao percorrer os cômodos, Judite teve a sensação incômoda de estar sendo observada não por olhos, mas por atenção. Cada passo parecia ressoar por tempo demais, mesmo depois que o som cessava.

No quarto principal, o guarda-roupa ainda guardava roupas da tia, organizadas por cor. Judite abriu uma gaveta e encontrou lenços dobrados com precisão quase ritualística. Ao fechá-la, teve a impressão fugaz de que o clique da madeira demorou a desaparecer, como se o som tivesse ficado preso entre as tábuas.

Só depois de percorrer o apartamento inteiro Judite percebeu o que ainda não havia encarado diretamente.

As bonecas.

 

O que permanece na estante

A estante baixa contra a parede da sala sustentava sete bonecas. Não havia placas, etiquetas ou qualquer indicação de ordem, mas Judite percebeu de imediato que a disposição não era aleatória. Cada uma ocupava seu espaço como se tivesse sido colocada ali após longa deliberação. Nenhuma se encostava na outra. Entre elas, pequenos intervalos de ar criavam fronteiras discretas, respeitadas com rigor quase cerimonial.

Havia variações claras — tamanho, tecido, desgaste —, mas o conjunto produzia uma coerência inquietante. Uma boneca de vestido azul remendado, olhos levemente desalinhados. Outra maior, de sorriso educado demais, com fissuras finas junto à boca. Uma terceira excessivamente neutra, cuja ausência de expressão incomodava mais do que qualquer exagero.

Algumas exibiam proporções estranhas, pigmentação irregular, costuras refeitas com linhas de cores diferentes. Outras pareciam preservadas em excesso, como se cada fio de cabelo tivesse sido forçado a permanecer no lugar. A menor trazia marcas sutis de manuseio antigo, um pé rachado colado com cuidado.

Judite deu um passo para trás, permitindo que as sete bonecas entrassem em seu campo de visão ao mesmo tempo. O efeito era desconcertante. Separadas, eram apenas objetos antigos. Juntas, sugeriam um arranjo que se sustentava por razões que Judite não conseguia nomear.

Ela tentou rir da própria inquietação. Bonecas eram apenas bonecas. Ainda assim, evitou reorganizá-las, mover qualquer uma de lugar ou aproximar demais o rosto.

 

Escalas de controle

Os dias passaram a obedecer ao ritmo do apartamento. Judite acordava, trabalhava em suas miniaturas, evitava a sala durante o dia. À noite, porém, o controle escapava.

A primeira vez foi um estalo seco, às 1h17. Judite atribuiu à madeira. Na noite seguinte, foram três estalos, espaçados com precisão. Ela se levantou, verificou a estante. Nada mudara.

Na terceira noite, o som foi diferente: um arrastar curto, deliberado. O atrito suave de um sapatinho deslizando sobre a madeira do piso.

Judite acordou antes de compreender. O coração disparado, o quarto mergulhado em escuridão densa. Acendeu a luz e percorreu o corredor.

As bonecas estavam na estante. Imóveis. Alinhadas.

Ainda assim, algo estava errado.

Uma delas — a dama vitoriana de vestido verde-esmeralda — parecia diferente. Não havia sinal concreto de mudança. Apenas a sensação incômoda de que, antes, seu rosto não apontava para o corredor. Para o quarto.

Ela recuou, irritada consigo mesma. A memória falhava. O cansaço distorcia.

No dia seguinte, enquanto pintava a miniatura de um guerreiro élfico, a sensação de ser observada tornou-se uma coceira física na nuca. Ao virar-se, as bonecas estavam visíveis pela porta aberta. Nenhuma se movera. Ainda assim, os olhos de vidro refletiam a luz de modo a criar a ilusão perfeita de um olhar fixo, acompanhando cada movimento.

Foi então que Judite se sentiu uma intrusa, e o apartamento inteiro — paredes, silêncio, ar — ajustava-se para assimilá-la.

 

Sons que não pedem licença

O desconforto consolidou-se nos ruídos.

Agora vinham em ondas previsíveis, sempre após a 1h da manhã. Judite tentou racionalizar: variação térmica, tubulação, o prédio assentando. Mas os sons tinham uma qualidade tátil, vinham da sala e cessavam abruptamente quando ela prendia a respiração para ouvir melhor.

Numa madrugada, o ruído rompeu qualquer molde racional: o arrastar lento e contínuo de um corpo sendo reposicionado sem pressa.

Judite acendeu a luz. O corredor estava vazio. A sala, iluminada pelo poste da rua, revelava a estante intacta. O ar, porém, estava diferente — mais frio no ponto exato entre o sofá e a estante.

Aproximou-se. A dama vitoriana mantinha a nova pose. Algo mais, porém, chamou sua atenção: a sexta boneca, de vestido lilás e olhos úmidos. Os braços, antes ligeiramente abertos, haviam descido. As mãos agora repousavam sobre o vestido.

Judite não tocou em nada. Afastou-se devagar, sentindo a pele arrepiar-se não de medo, mas de compreensão.

 

O alívio de cobrir

A necessidade de agir tornou-se física. Não para resolver, mas para criar uma trégua, uma barreira simbólica entre ela e a atenção da sala.

Encontrou o lençol no fundo do armário da tia — algodão grosso, manchado pelo tempo, com cheiro de gavetas fechadas e bolor. Sem hesitar, lançou-o sobre a estante.

O efeito foi imediato. O ar da sala pareceu expirar. A pressão entre os ombros de Judite aliviou. O silêncio, antes carregado de expectativa, tornou-se doméstico.

Naquele instante, Judite sentiu-se sozinha de verdade no apartamento. Sem testemunhas de porcelana.

Trabalhou o dia inteiro com foco renovado. O mundo voltou a ter escala controlável. Algumas coisas, concluiu, não precisavam ser encaradas; bastava mantê-las fora do campo de visão.

 

Vozes sem boca

Naquela noite, os sons evoluíram.

Não eram palavras, mas o roçar contínuo de seda, o murmúrio de vozes abafadas.

Judite virou-se na cama, os punhos cerrados nas cobertas. Os sussurros não vinham de um ponto. Emanavam do apartamento, do ar, como se as próprias paredes exalassem som.

Às 2h47, a irritação suplantou o medo. Ela se levantou e atravessou o corredor a passos firmes.

Na penumbra da sala, o lençol sobre a estante parecia uma forma viva, respirando. Judite agarrou o tecido e puxou.

O pano caiu no chão.

As bonecas estavam alinhadas, imóveis, exatamente como antes.

Mas o silêncio parecia carregado de algo recém-calado.

Então percebeu: talvez os sons nunca tivessem vindo de bocas.

 

Uma fora do lugar

Um olhar mais atento revelou:

a dama vitoriana não estava mais na estante.

Judite parou na entrada da sala, o cérebro recusando-se a aceitar o espaço vazio. Só depois de percorrer o ambiente com os olhos é que a encontrou.

Ela estava sentada no sofá.

O vestido verde-esmeralda repousava com cuidado sobre o estofado, as dobras perfeitas. As mãos estavam no colo, uma sobre a outra, numa postura de espera.

Judite recuou, o calcanhar batendo na mesa de centro. Foi então que viu o resto.

As outras seis bonecas permaneciam na estante. Todas com as cabeças voltadas para a dama vitoriana no sofá.

Judite recolocou a boneca no lugar com um gesto brusco. O clique suave do encaixe soou definitivo demais.

Lentamente, como se obedecessem a um sinal invisível, as cabeças das outras bonecas retornaram à posição original.

— Chega — disse Judite.

Nada mais aconteceu.

Mas ficou claro que havia regras.

E que não era ela quem as estabelecia.

 

Resíduos

A loja de antiguidades na Rua Augusta cheirava a cera velha. A poeira dançava nos raios de luz que cortavam a penumbra entre móveis e objetos empilhados.

O dono, um homem de óculos grossos e dedos manchados de tinta, ouviu Judite em silêncio.

Ela descreveu a estante. As sete bonecas. A disposição.

Ele demorou a responder. Os dedos encontraram uma pequena estatueta de marfim sobre a bancada e passaram a acariciá-la. A superfície estava lustrosa de tanto toque.

— A Coleção Silveira — murmurou por fim, sem erguer os olhos. A voz parecia pouco usada. — Sua tia era metódica. Dizia que São Paulo precisava de filtros. Que a cidade exalava excesso. Alguém tinha de conter.

Fez uma pausa. Os dedos cessaram o movimento.

— As bonecas não são antiguidades — disse. — Há coisas que não se esvaziam.

Ergueu o olhar. Havia ali não emoção, mas cansaço.

Judite saiu da loja. O cheiro de cera permaneceu em suas roupas. A sensação de peso nos ombros já não parecia metáfora.

 

Intervalo doméstico

Judite voltou para o apartamento no meio da tarde.

Lavou as mãos por tempo demais, observando a água levar o cheiro de cera que insistia nos dedos. Secou-as com papel toalha, jogou fora a primeira folha, usou outra. A segunda bastou.

Abriu a janela da sala por alguns centímetros. O barulho da rua subiu imediato — buzinas, um ônibus forçando a marcha, vozes indistintas. O ar entrou morno, urbano. Fechou de novo.

Preparou café. Esperou a água ferver. Desligou o fogo no momento exato, como sempre fizera. O cheiro ocupou a cozinha e, por um instante, tudo coube em gestos conhecidos.

Sentou-se à mesa com a caneca entre as mãos. O líquido estava quente demais. Esperou.

Judite bebeu um gole pequeno. Fez uma careta. Estava forte demais. Pensou em jogar fora, mas não o fez.

Terminou o café em silêncio.

Ao se levantar, teve a impressão vaga — quase reconfortante — de que algo havia se acomodado no apartamento. Não melhor. Apenas assentado.

Como poeira depois de parar no ar.

 

Um espaço pleno

O apartamento estava cheio. Uma presença difusa saturava o ar, engrossava o silêncio, pressionava os cantos das paredes.

Judite evitava a sala. O quarto tornara-se um território diminuto.

Um pincel fora do lugar. Cores antes meticulosas misturadas de forma grotesca — branco contaminado por vermelho seco, como se dedos sujos tivessem passado por ali.

Até que, numa madrugada, acordou com a certeza absoluta de não estar só.

A boneca camponesa estava sentada na poltrona aos pés da cama. O rosto vazio refletia a luz do poste de modo distorcido.

Judite não gritou. Agarrou a boneca e atirou-a no lixo do banheiro, trancando a porta.

Na manhã seguinte, a boneca estava de volta à estante. Impecável. O lençol que as cobrira, cuidadosamente dobrado, repousava sobre a mesa de trabalho de Judite.

A mensagem era clara: nada ficava onde ela decidia.

O auge veio com a tempestade. A energia caiu, mergulhando o apartamento na escuridão quente. À luz de uma vela, Judite decidiu acabar com aquilo. Jogaria todas fora.

Ao entrar na sala, um vento frio atingiu seu rosto. A chama vacilou.

As bonecas não estavam na estante.

Dispostas em semicírculo no centro da sala, voltavam-se para a poltrona de veludo da tia. E ali, reclinada com familiaridade absoluta, estava a dama vitoriana.

Não houve som.

Sente-se.

A palavra impôs-se diretamente em sua mente — feminina, antiga, inquestionável.

Judite deu um passo atrás.

Um relâmpago iluminou a sala.

A poltrona estava vazia.

Ao seu lado, um rosto de porcelana inclinado: os olhos de vidro agora negros, refletindo apenas o pânico.

Ela fugiu. Trancou-se no quarto. Enfiou-se sob as cobertas.

Vozes sobrepostas infiltraram-se em seus pensamentos: desejos confessados, raivas contidas, invejas corroídas pelo tempo. A gula que devora, a soberba que despreza, a luxúria que contamina, a ira que incendeia, a avareza que retém, a preguiça que apodrece.

Um coro de porcelana.

 

Fronteiras porosas

Quando o dia amanheceu, tudo estava em seu lugar.

A luz entrou pela janela, revelando a estante intacta, as sete bonecas alinhadas. A dama vitoriana na primeira posição, impecável.

Ainda assim, Judite soube. Algo se encaixara.

Sentada na cozinha, percebeu o tremor sutil nos dedos. Não era medo. Era ajuste. Ao levar a xícara aos lábios, sentiu o impulso de beber tudo de uma vez, com voracidade. Conteve-se.

Pensamentos surgiam sem aviso: irritação com o barulho do elevador, desprezo pelo porteiro, fantasias cruéis e passageiras sobre desconhecidos. Ideias que se plantavam e desapareciam.

Não havia mais vozes. Apenas o eco interno. As fronteiras entre ela e o apartamento haviam se dissolvido.

As bonecas não estavam vazias.

Nunca estiveram.

 

A instalação

A tia não fora uma colecionadora.

Essa compreensão chegou sem choque. Colecionar implicava apego, vaidade. A tia fizera algo mais paciente. Mais sujo.

Ela fora uma jardineira.

Judite voltou para o quarto e sentou-se à mesa de trabalho. Os pincéis, as tintas, as miniaturas inacabadas pareciam pequenas demais.

Escolheu um pincel mais grosso. Abriu um frasco de tinta escura.

Enquanto molhava o pincel, pensou na cidade lá fora. São Paulo se estendia vasta, saturada, pulsando com excesso — desejos não resolvidos, raivas acumuladas. Um terreno fértil. A tia apenas reconhecera isso antes.

O tremor nos dedos diminuiu à medida que se concentrava. O gesto encontrou propósito. Havia conforto nisso.

Ela olhou uma última vez para a estante na sala. As bonecas permaneciam paradas, expectantes, recipientes que conheciam bem sua função.

O apartamento na Consolação era silencioso. Estável. Pronto.

Havia espaço para mais uma estante.

E a cidade nunca deixaria de produzir o que precisava ser contido.

 

Tema: Bonecas com sete pecados capitais.

 

 


Aviso de Direitos Autorais

Todo o conteúdo deste texto é protegido pela Lei nº 9.610/98. Sua reprodução, adaptação ou uso sem a devida atribuição ao autor é proibida e pode resultar em ações legais. Para uso autorizado, entre em contato com o autor.


 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 23/02/2026
Alterado em 23/02/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários