Por Alves Batista
Colhe o dia — disseram.
Mas o dia
não é pomar.
É um animal inquieto
que não aceita rédea.
Tentaste segurá-lo pelo nome.
Chamaste: agora.
Ele mordeu.
Há manhãs que parecem promessas,
mas são claridades provisórias.
O sol não é cúmplice —
é presença.
Colher exige risco.
E nada aqui é teu.
Nem o pulso,
que bate sem pedir licença.
Rasgar o cálculo?
Ele te segurava à beira do excesso.
A memória não é cárcere:
é cicatriz — e também mapa.
Dizem: vive antes que acabe.
E viver, sim, também gasta.
Cada gesto perde algo —
mas acende outro tanto.
O instante não floresce —
irrompe.
E muitas vezes
arde.
Colher o dia…
Talvez o dia nos colha.
Um a um.
Sem pressa.
Mas enquanto respira,
há fogo.
E o que chamamos chama
não é só combustão —
é sinal
de que estamos vivos.

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UM DIA APÓS OUTRO
Vivo um dia após outro,
Como quem tem consciência
Que todo tempo é pouco
Pra chegar a transcendência...
Cada vez que o Sol vem
Torso para ver além
Desse plano de sufoco...
Exercitando paciência,
Vivo um dia após outro,
Como quem tem consciência...