Crônica por Alves Batista
“O governo já admite que não haverá espaço no orçamento para saúde e educação” — O Globo
O futuro já bate à porta, mas ninguém abre. Em Brasília, os técnicos falam em “falta de espaço no orçamento”, como se o país fosse uma mala pequena, incapaz de guardar os sonhos de saúde e educação. A notícia, publicada pelo O Globo, soa como um trovão distante: sabemos que a tempestade virá, mas seguimos caminhando sem guarda-chuva.
Na escola de Dona Marta, as carteiras são como barcos apertados num cais. Crianças se espremem, tentando aprender entre o barulho e o calor. O professor, marinheiro cansado, conduz a turma com a bússola da paciência. Mas já se anuncia: em 2027, talvez falte madeira para construir novos barcos.
No hospital de Seu João, o corredor é um rio lento. Pacientes esperam como peixes à deriva, cada um com sua dor, cada um com sua esperança. O orçamento, dizem, não terá espaço para garantir o mínimo. E o mínimo, aqui, é o remédio que salva, é o leito que acolhe.
O país parece escrever poesia às avessas: transforma direitos em números, transforma urgências em percentuais. A Constituição, que deveria ser um poema de justiça, vira cálculo frio. E o cálculo, sabemos, não abraça crianças nem consola enfermos.
O Brasil, nesse retrato, é um livro em que as páginas se rasgam antes da leitura. O futuro é anunciado como quem avisa: “faltará tinta para escrever as próximas linhas”.
2027 não é apenas uma data. É metáfora de escolhas. Se faltar espaço para saúde e educação, não será apenas o orçamento que se estreita. Será o horizonte que se encolhe.
E a crônica, que hoje se escreve em cafés e corredores, talvez se torne elegia: a de um país que esqueceu que o essencial não cabe em planilhas, mas em vidas.
Fonte: O Globo