Este conjunto reúne dois poemas compostos no estilo experimental Reprise, criação do poeta Elígio Moura, organizados deliberadamente como um dueto poético.
Em Faces da História, Jacó Filho reflete sobre o caráter ambíguo do relato histórico, evidenciando como vencedores e derrotados disputam versões, como fatos são ajustados e como a memória coletiva pode ser moldada por interesses e silêncios.
Em resposta direta, Vozes da Memória, de Alves Batista, desloca o foco das versões para os silenciados. O poema assume a palavra a partir da memória reprimida, denunciando arquivos, papéis e carimbos que tentam homologar o esquecimento. Aqui, a memória não é passiva: ela insiste, retorna e confronta o discurso oficial.
Lidos em sequência, os poemas propõem um percurso claro:
da História que se escreve à Memória que resiste;
do discurso que organiza os fatos à voz que rompe o silêncio.
Jacó Filho
Toda história tem dois lado,
Do derrotado e do vencedor...
Tendo os fatos adequados,
A cada versão e historiador...
Os segredos serão velados,
E despercebidos pelo leitor...
Toda história tem dois lado,
Do derrotado e do vencedor...
Que paga pra ser lembrado,
Escondendo o que passou...
Os segredos serão velados,
E despercebidos pelo leitor,
Que se mantém enganado
A respeito do conquistador,
Que paga pra ser lembrado,
Escondendo o que passou...
Tendo os fatos adequados,
A cada versão e historiador...
A memória guarda o que foi calado
E revela o silêncio do opressor...
O passado insiste em ser lembrado
Mesmo oculto nas páginas do autor...
O tempo revive o que foi narrado
Nos arquivos do poder enganador...
A memória guarda o que foi calado
E revela o silêncio do opressor...
A verdade surge do lado apagado
Entre papéis de um discurso sedutor...
O tempo revive o que foi narrado
Nos arquivos do poder enganador...
O povo clama por ser registrado
E rejeita o carimbo historiador...
A verdade surge do lado apagado
Entre papéis de um discurso sedutor...
O passado insiste em ser lembrado
Mesmo oculto nas páginas do autor...
Este dueto afirma que toda narrativa histórica possui fissuras — e que é nelas que a memória encontra passagem para falar.
“Reprise – Estilo de poema experimental criação do poeta Elígio Moura”

Eligio Moura
Reprise
Não basta haver dois polos no produto
Do tempo escrito, pago e traduzido;
Quem narra escolhe o foco e o atributo,
E o erro veste a máscara do erudito.
A História, mais que espelho, é tributo:
pois, recorta, pesa e justifica o acontecido...
Não basta haver dois polos no produto
Do tempo escrito, pago e traduzido;
Se o ouro compra a pena e deixa tudo enxuto,
Cabe ao povo romper o que foi distorcido
A História, mais que espelho, é tributo:
pois, recorta, pesa e justifica o acontecido
E ler o que a página não explica, não dá fruto.
Pois torna força bruta em redenção de algo roído
Se o ouro compra a pena e deixa tudo enxuto,
Cabe ao povo romper o que foi distorcido
Quem narra escolhe o foco e o atributo,
E o erro veste a máscara do erudito.
O diálogo entre os dois poemas
revela o confronto inevitável
entre narrativa e resistência.
Em Faces da História,
a escrita oficial seleciona fatos,
privilegia vencedores e oculta derrotados,
estruturando versões convenientes que seduzem o leitor
e moldam memórias.
Vozes da Memória responde a essa construção:
a memória dos silenciados insiste,
retorna e denuncia o apagamento,
mostrando que arquivos e carimbos do poder
jamais podem conter o passado.
Lidos juntos,
os poemas conversam sobre o eterno embate
entre o poder de contar e a força de lembrar,
afirmando que a memória atravessa o tempo,
rompe barreiras
e mantém viva a verdade
que a História tenta esconder.