Memórias de Alves Batista
O primeiro acorde do violão em “Baby, I Love Your Way” não é apenas um som. É uma máquina do tempo. Não me transporta a um amor específico, mas a um verão eterno dos anos 90, quando a ouvi pela primeira vez — numa fita cassete já desgastada.
A música, nascida nos anos 70, chegou até mim envolta no mesmo manto de nostalgia com que meu pai escutava seus vinis de Roberto Carlos e baladas, enquanto minha mãe se deixava levar por e João Mineiro & Marciano e Benito Di Paula.
Recordo a textura áspera do piso da sala, a luz da tarde filtrada pela cortina, desenhando listas de sol no chão. A voz de Peter Frampton — aquele talk box que eu não compreendia, mas que soava como magia — preenchia o espaço vazio da casa.
Não havia pressa.
Não havia notificações.
A música era um estado de espírito, um convite para simplesmente sentir. Uma promessa de que o amor poderia ser assim: largo, melódico e descomplicado, como um final de tarde que nunca termina.
“Baby, I Love Your Way” era a trilha sonora da espera.
A espera pelo seriado que exibia apenas um episódio por semana, na noite marcada;
pela chamada no telefone fixo que talvez não viesse;
pelo cheiro do jantar que ainda não começava.
Era uma pausa.
Hoje, a música ainda toca — mas é um arquivo digital, um stream entre milhões. A mesma melodia que antes preenchia uma sala inteira agora cabe dentro de um fone de ouvido, disputando atenção com o mundo.
A canção que falava de ver o pôr do sol nos olhos de alguém agora ecoa enquanto se desliza por uma tela sob a luz azulada de um celular. E a nostalgia que ela carrega não é apenas pela juventude perdida, mas por um modo de existir.
Era um tempo de silêncios preenchidos por melodias, de tardes vazias que se completavam com sonhos — e de um amor que, na imaginação infantil, parecia tão simples e radiante quanto aquele refrão eterno: “everyday.”
