O tempo é um rio antigo
Que não aprendeu a voltar;
Arrasta o peso do vivido
E devolve o que ousamos sonhar.
Neste primeiro de janeiro,
Não supliques ao destino:
Faz-te a mão, faz-te obreiro,
Sê gesto limpo e cristalino.
O ontem é folha caída,
Humus quente no chão do ser;
De cada hora renascida,
Só o agora consente viver.
Não temas o ano sem nome,
Nem o mapa ainda em branco:
O passo que hoje se move
Já altera a forma do canto.
Que a pressa não rasgue o dia,
Nem o medo silencie a voz;
Que a alegria, quando é tua,
Faça ponte viva entre nós.
Planta o amanhã na coragem,
Regue o instante com fé:
A vida não pede passagem —
Exige-nos sempre de pé.