Prosa poética de Natal
Por Alves Batista
Ao cair da tarde, o verão recolhe seus véus de luz
e repousa sobre a terra como um canto antigo.
No ar suspenso, o cheiro do manjericão ascende
feito incenso verde,
enquanto a terra molhada respira um rumor de esperança.
Tudo silencia:
é como se o tempo dobrasse os joelhos
e aguardasse.
As andorinhas escrevem hieróglifos no céu dourado.
E entre o adeus do sabiá e o primeiro tremor do vaga-lume,
um instante secreto se abre —
um portal tênue onde o mundo se deixa tocar.
Ele não desce na brancura da neve,
mas no mormaço que embala o ventre da terra,
no perfume das mangas que se rendem ao chão.
Sua manjedoura é apenas um abrigo de ternura,
onde um canto de mãe tece paz
com fios invisíveis.
Não há estrondo de anjos:
há um sino sozinho, ecoando
como gota de ouro rolando pelas colinas.
E aqueles que chegam não trazem coroas,
mas a simplicidade das mãos vazias:
o roceiro com o fruto que a manhã lhe deu,
a rendeira trazendo seu linho como se oferecesse luz,
a criança com um girassol que ainda guarda o sol na palma.
O mistério veste a roupa do dia:
o leite que sobe em brancos suspiros,
a água compartilhada,
a mesa que aguarda o pão.
Ele chega como quem vaga pelas tardes
e encontra portas entreabertas,
pedindo apenas um gole de acolhimento
para revelar silenciosamente
a eternidade escondida no simples.
A noite acende seu manto morno.
Pirilampos, como pequenas almas verdes,
desenham caminhos de volta.
E no brilho manso das estrelas repousa o segredo:
um recém-nascido que respira,
que chora como quem inaugura o mundo,
que ri como quem o consola.
No calor de seu corpo pequeno arde a fogueira primordial,
que desfaz o gelo antigo dos séculos,
e devolve às mãos humanas sua brandura perdida.
É Natal.
O divino se faz brisa —
habita o perfume da rosa,
o abraço que reata destinos,
o perdão que nasce antes de ser pronunciado.
É o sagrado semeado no humano,
abrindo flor em cada gesto que oferece,
em cada palavra que acalma,
em cada canto que atravessa a noite
como promessa de paz.
E que, sob este céu tropical iluminado de estrelas úmidas,
a criança eterna renasça em nós.
Que encontre repouso em nossos olhos,
e caminho em nossos passos.
Que o milagre não se esconda no calendário,
mas desperte em cada amanhecer,
em cada delicadeza que, sem anunciar-se,
salva o mundo aos poucos.
Feliz Natal —
na luz que passa,
na vida que pulsa,