Prosa poética por Alves Batista
🎵 Ouça: “A Miragem” – Marcus Viana
Há quem diga que só se deve amar o que é firme,
o que promete voltar — como o sol,
ou o silêncio eterno das montanhas.
Mas eu te pergunto, jovem inquieto:
o que é o amor, senão o risco sagrado
de abraçar o que pode partir?
O amor é nuvem de verão,
branca, quase divina,
que se desfaz ao toque dos dedos.
É miragem no deserto da rotina,
um lampejo de sombra e água
onde só há areia e céu.
Os prudentes desviam o olhar,
seguem secos, e chamam isso sabedoria.
Os amantes, esses tolos venturosos, correm.
Sabem que pode ser engano,
mas correm mesmo assim.
Porque só quem se perde encontra
o veio oculto de água sob a areia.
Por amor se põe a mão no fogo,
sabendo que ele queima.
E ele queima, sim,
mas também ilumina,
revela contornos que ignorávamos possuir.
É por amor que rasgamos os véus do medo,
saltamos no abismo sem promessa de asas,
fechamos os olhos não por cegueira,
mas por fé.
E quando a tempestade chega
— porque ela vem —
não apenas destrói.
Ela arrasta certezas frágeis,
devora o pó dos dias comuns,
e no silêncio do furacão
um novo sol nasce.
Girassóis da resiliência florescem,
voltados para a luz que nós mesmos nos tornamos.
A morte já não é fim,
mas sombra dissolvida diante do Deus novo
que desperta no peito:
o Deus da coragem,
aquele que ousou amar uma miragem
e, ao fazê-lo, criou o próprio oásis.
Por isso, não temas o deserto.
Não temas a ilusão.
Teme apenas o coração vazio,
aquele que nunca ousou correr
de mãos estendidas em direção ao impossível.
Porque é nessa corrida
que a vida se refaz
e encontra, talvez,
o seu único sentido.
