DEBATE POÉTICO
por Alves Batista & José Aprígio da Silva
Soneto por Alves Batista
Eis-me forjado em lutas interiores,
De carne e pó, não de ilusões floridas;
Minha pátria é o pulso das feridas,
O tempo caro em rudes dissabores
.
Rompi fronteiras, recusei senhoris,
Só me sustentam brasas reunidas:
Chama oculta em mim de minhas vidas,
Livre, enfim, do precito e dos gradis.
Eis o meu reino: o instante que me acalma;
E o pacto único, no amor, subsisto:
Rendo-me à paz do teu sutil abrigo.
Recebe, pois, o que me resta na palma,
Este rumor de ser, febril, benquisto:
Tu és meu porto. E eu, meu próprio perigo.
Décima em Cordel por José Aprígio da Silva
Esquema: ABBAACCDDC
Tu és meu porto, o meu lugar florido
A minha vida há anos, a sua pertence
Eternamente juntos no mesmo lance
O nosso amor pelos céus foi ungido
O amor nos ama e tem nos acolhido
Tu és meu porto, de todo o mais seguro
Contigo ao meu lado, não temo o escuro
Jurei um dia somente a ti amar fielmente
Por onde ando, te levo sempre na mente
Somos iguais, na sua tez, eu me configuro.
Soneto por Alves Batista
Esquema: ABBA ABBA CDC DCD
Se sou teu porto — dizes — em flor pura,
eu, que carrego os mares que escolhi,
trago no peito a chama d’O Colibri,
brasa que insiste além da noite escura.
Que o ágape nos una, sem censura;
porto não voa, e sabes disso em ti.
Se me acolheres, sê quem sempre vi:
farol antigo em luta que perdura.
Recebo o teu cordel, fiel, profundo;
mas não repouso em cais por longo nó:
sou de marés que moldam seu infundo.
Que atravessemos juntos pelo Marajó:
tu, luz que acalma o vento vagabundo;
eu, travessia — em passo leve de cipó.
Redonde por Alves Batista
No cais a calma acena,
e o mar levanta o pano;
quem ama às vezes pena,
mas segue o mesmo afano.
Pois verso vira abrigo,
quando o mar se faz amigo.
Do porto ao leve colibri,
do sonho ao gesto humano,
no cais a calma acena,
e o mar levanta o pano.