Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Perfil Livro de Visitas Contato
Textos

Proibido ao Cidadão

Crônica jornalística por Alves Batista


 

Na política brasileira, alguns gestos não chegam como decisões: chegam como avisos.

A liminar de Gilmar Mendes foi exatamente isso — um recado seco, escrito na caneta do decano, de que certas portas da República agora têm placa de “entrada restrita”.

De forma solitária, o ministro decidiu que apenas o Procurador-Geral da República pode pedir impeachment de integrantes do próprio Supremo. O cidadão, que por 75 anos pôde apontar desvios no andar de cima, foi gentilmente convidado a calar-se.

A velha Lei 1.079/50, límpida em seu artigo 41, sempre garantiu ao público esse raro fio de participação.
A Constituição de 1988 nunca o questionou.

Mas bastou o pedido do Solidariedade e da Associação dos Magistrados Brasileiros para que Gilmar Mendes redesenhasse o mapa da República — e o fizesse parecer um condomínio fechado, com guarita, senha e lista de autorizados.

Tudo isso no exato momento em que o STF enfrenta críticas justamente por condutas que não combinam com o pedestal em que se coloca.

Classificada como “teratológica”, a decisão se sustenta como um móvel bambo, que ninguém ousa encostar para não cair de vez.

O Senado, com todos os seus vícios, sempre soube filtrar pedidos absurdos de impeachment.

Ainda assim, a liminar soa como preparo prévio, um colchão político para os dias em que a Corte talvez não queira enfrentar a ventania.

É traumático derrubar um ministro do Supremo. Mas é mais traumático ainda comunicar ao cidadão que sua participação na vida institucional pode ser redesenhada de madrugada.

Ao tirar dele a última fresta de interferência, Gilmar Mendes não apenas muda regras: reafirma a velha suspeita de que, no Brasil, algumas instituições preferem o país como plateia — nunca como protagonista.

 


Nota ao leitor

Esta crônica nasceu à sombra do editorial “Uma decisão teratológica de Gilmar Mendes”, publicado em Notas & Informações pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A partir daquela leitura, o texto aqui toma caminhos próprios, ampliando imagens, acentuando ritmos, recolhendo inquietações.

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 04/12/2025
Alterado em 10/01/2026
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários