Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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20 DE NOVEMBRO

Cronica Social por Alves Batista


 

Brasil, 20 de novembro de 2025.

 

Disseram que eu morri em 1977.

Mas minhas palavras não obedecem.

 

Parti com o cheiro do lixo,

o gosto da fome,

o peso dos meus cadernos.

 

Deixei sementes.

Cresceram sem pedir licença.

 

No Ibirapuera, onde antes eu só passaria de longe,

ergueram uma biblioteca com meu nome.

Chamam de homenagem.

Eu chamo de atraso da história.

 

A Universidade do Rio me deu um título.

Doutora Honoris Causa.

Eu, que estudei pouco.

Eu, que aprendi lendo o que resgatei do lixo

como quem salva pão velho para enganar a barriga.

 

Criaram um prêmio com meu nome.

R$ 50 mil.

Dinheiro que, nos anos 60, teria mudado meu destino.

Ou pelo menos a minha fome.

 

Até a Google me exibiu num doodle.

Lá estava eu, sorrindo.

Se soubessem das noites em que chorei

com um lápis quase sem ponta…

 

Hoje é dia de Zumbi.

Dia da Consciência Negra.

E eu, Carolina —

neta de escravizados,

filha da favela —

sou lembrada.

 

Agora não como curiosidade.

Não como adorno de vitrine.

Mas como parte do que este país deveria ter visto antes.

 

Em 2026, minha história vai atravessar a avenida.

A Unidos da Tijuca vai cantar meu nome.

Povo que um dia passou por mim sem enxergar

vai bater palma para a minha vida.

 

Os tambores que ecoaram nos quilombos

agora ecoam por mim.

 

Morri em 1977.

Mas renasço quando uma mulher negra

abre um caderno barato e escreve.

 

Renasço quando uma filha de catadora

olha minha estátua e pensa:

“Se ela conseguiu, eu também posso.”

 

A liberdade que Zumbi buscou

também nasce da palavra.

Do caderno gasto.

Da voz que insiste.

 

Minha arma foi a caneta.

Meu quilombo, a página em branco.

 

E aqui estou,

quase meio século depois da morte,

ainda viva no que escrevi.

 

A Consciência Negra permanece.

E eu sei:

nenhuma palavra foi em vão.

 

As sementes que deixei

hoje têm mãos que cuidam,

vozes que continuam,

corpos que resistem.

 

— Carolina Maria de Jesus,

que agora escreve através de quem lê.

 

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 20/11/2025
Alterado em 10/01/2026
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