Resenha por Alves Batista
Assisti à nova adaptação de Frankenstein meio desconfiado.
Já perdi a conta de quantas vezes essa história ganhou vida.
Mas desta vez, algo diferente aconteceu.
Este Frankenstein é velho no coração e novo na carne.
Um choque elétrico no mito — daqueles que fazem a gente lembrar
por que ainda vale revisitar os monstros.
O diretor (cujas escolhas visuais são de cair o queixo) entende o peso do nome que tem nas mãos.
Ele mergulha no gótico, mas traz o horror pra perto — úmido, palpável, quase biológico.
Os laboratórios parecem feitos de carne e ferrugem.
É aquele tipo de filme em que até a luz soa viva.
Cada quadro parece respirar e gritar.
A Criatura aqui não é um amontoado de parafusos.
É uma tragédia ambulante.
O ator entrega uma performance bruta e comovente — daquelas que fazem o público prender a respiração.
O olhar dele é puro sofrimento: raiva, medo, confusão.
Ele não quer ser mau, só quer existir sem ser odiado.
A maquiagem é incrível, mas o que mais impressiona é a interpretação da alma por trás daquelas cicatrizes.
Victor é o reflexo do nosso tempo:
brilhante, arrogante, obcecado por ultrapassar o que é humano.
O filme acerta ao não pintá-lo como um louco, e sim como um homem comum com poder demais.
No fim, a criatura é só o espelho das escolhas que ele (e talvez nós) não quisemos encarar.
O roteiro toca em temas que nunca envelhecem:
Em plena era da inteligência artificial, é impossível não ver o paralelo.
Frankenstein, no fundo, é sobre todos os filhos que o mundo rejeita e sobre os criadores que não assumem o que fizeram.
Não espere sustos nem sangue fácil.
Este é um terror de silêncio e desconforto.
O ritmo é lento, os diálogos são densos, mas tudo serve à ideia.
Quando os créditos sobem, não dá pra sair da sala sem sentir aquele peso bom — o de ter visto algo que realmente pensa.
Um filme que prova que velhas histórias ainda têm muito a dizer, se forem contadas com coragem e um toque de loucura.
O novo Frankenstein é exatamente o que o cinema precisava:
um lembrete de que os monstros mais assustadores ainda somos nós.
"E assim o coração se partirá e partido continuará a viver."
— Frankenstein (2025)