Conto Gótico por Alves Batista
A Mansão Blackwood não era exatamente uma casa.
Era um organismo cansado — um pulmão úmido respirando mofo e mágoa no corpo do mundo.
Suas paredes suavam frio. O silêncio tinha sabor, e quem o provava sentia um leve gosto de ferrugem e eternidade.
Alistair e Eleanor viviam ali, como dois retratos esquecidos na moldura errada do tempo.
Chamavam-se de “marido” e “esposa”, mas essas palavras haviam se tornado rótulos descascados em frascos vazios.
Dormiam lado a lado, e mesmo o ar entre eles parecia morto — um véu de poeira sobre um amor fossilizado.
O Corvo de Alistair não era um pássaro.
Era uma extensão de sua carne, uma sombra emplumada que nascia de suas costas, com penas negras e úmidas como lágrimas.
O bico pousava perto de seu ouvido, e sua voz era a própria respiração da mansão.
— Ela não te ama — sussurrava o Corvo, com o hálito de cova antiga. — Ama a ideia do homem que poderias ter sido.
Tu és meu. Esta casa é nossa. Aqui, a imobilidade é o prêmio por quem renunciou à dor.
E Alistair, cansado, acariciava o pescoço da criatura.
A imobilidade era, de fato, um tipo de paz.
O Corvo alimentava-se de arrependimentos, e Alistair os tinha em abundância.
Cada lembrança de ternura virava pena, cada esperança abortada virava osso.
O homem e o animal eram um só: um corpo dividido entre a culpa e o hábito.
Mas Eleanor carregava outra presença.
A Águia não vivia fora dela — vivia dentro.
Não era de carne nem de penas, mas de pura eletricidade.
Quando o desejo de fugir a dominava, a Águia despertava: um esqueleto de luz, ossos de raio e olhos de sol eclipsado, dilacerando-lhe o peito com a urgência de existir.
Seu chamado não era som — era uma ordem vibrando no ar:
Mova-se.
E quando ela se movia, a mansão tremia.
Eleanor passava os dias entre retratos amarelados e cortinas mofadas, lembrando-se de quando a casa era viva — quando o amor entre eles ainda acendia as lareiras e as conversas pareciam ter cor.
Agora, restava-lhe o eco dos próprios passos e o peso do olhar do Corvo sobre si.
À noite, ela sonhava com alturas.
Via-se pairando acima de penhascos, o vento rasgando o rosto, o mundo pequeno abaixo.
Acordava arfando, o coração batendo em asas, e sabia: a Águia estava chamando.
A noite da ruptura veio púrpura e espessa, como se o céu tivesse apodrecido.
O que caía não era chuva, mas o pranto sólido das pedras do penhasco.
O mundo parecia derreter sobre a mansão — e a mansão, por sua vez, parecia gritar por dentro.
Eleanor sentiu a Águia nascer-lhe na espinha:
um clarão branco, ardente, que rasgou o vestido e incendiou o quarto em sombras vivas.
As cortinas se ergueram como asas em pânico, e o espelho rachou ao meio, como se o reflexo recusasse continuar prisioneiro.
— Para onde vais? — perguntou Alistair, a voz misturada à do Corvo.
O Corvo eriçou as penas, exalando o cheiro agridoce de ossos queimados.
— Ela não pode — sibilou. — É parte da decadência. Parte de nós.
Eleanor deu um passo. Cada movimento parecia um trovão contido.
A Águia dentro dela tremia em pura luz.
— Isto não é amor — disse ela, o rosto banhado por clarões. — É um túmulo polido.
Chamas de ternura não sustentam o ar de uma prisão.
O Corvo lançou-se dela, não como ave, mas como ideia.
Transformou-se em uma nuvem de letras negras e frases inacabadas, palavras que sibilavam culpas:
“Lá fora é solidão. Fica. O sofrimento é mais seguro que o vazio.”
A Águia não lutou.
Ela leu a escuridão.
Cada faísca de seu corpo respondeu com um verbo, cada clarão uma palavra de refutação.
E então disse — não com voz, mas com sentido:
“O sacrifício sem amor não é virtude. É covardia.”
A nuvem de sombras se desfez em cinzas e voltou a se aninhar nas costas de Alistair, menor, sufocada.
Ele respirava com o esforço de quem carrega o próprio túmulo dentro do peito.
A mansão, sentindo o colapso, rangia como um animal moribundo.
Eleanor o olhou uma última vez.
Viu o homem — ou o que restava dele — e soube que o amor não morrera por falta de sentimento, mas por falta de movimento.
O amor precisa de ar. E eles haviam respirado apenas lembranças.
Ela tocou a maçaneta.
Era fria como o ferro de um esquecimento antigo.
A Águia bateu suas asas uma última vez, e a porta não se abriu — evaporou-se, virando pó de madeira e ferrugem.
Do outro lado, não havia paraíso, nem promessa: havia apenas o caos.
Mas era um caos dela.
Eleanor deu um passo para fora.
A Águia dissolveu-se em clarão e fundiu-se com o céu púrpura.
Estava livre — não para ser feliz, mas para ser inteira.
Dentro da mansão, Alistair caiu de joelhos.
O Corvo, agora fraco, arrastou o bico até seu ouvido.
— Vês? Lá fora é só outra forma de tempestade.
Mas Alistair não respondeu.
O vento que soprava pelas rachaduras trazia o eco distante de um trovão — o som das asas de Eleanor rasgando o firmamento.
E, pela primeira vez, ele percebeu: não odiava a fuga dela.
Invejava-a.
Olhou para o Corvo e percebeu que ele não estava fora de si.
Nunca estivera.
O Corvo era o nome que dera ao medo — e o medo, enfim, ganhara rosto.
Sentou-se no chão, exausto.
A mansão, ao redor, parecia respirar outra vez, um sopro baixo, como se o ar finalmente circulasse.
E pela primeira vez em anos, o silêncio não doía — apenas pesava.
Quando a tempestade cessou, o céu amanheceu em cinza-ouro.
Eleanor caminhava pelo descampado, o vestido rasgado, a pele coberta de fuligem.
Acima dela, o céu ainda tremeluzia — fragmentos da Águia cintilando entre as nuvens, como constelações inacabadas.
Dentro da mansão, Alistair permaneceu.
Não sabia se ainda era homem, ou ruína.
Mas o Corvo, agora reduzido a sombra, já não falava.
Dormia, talvez para sempre.
E assim ficaram:
Ela, mulher-clarão, fundida ao horizonte;
Ele, homem-sombra, guardião das ruínas.
Dois símbolos de um mesmo amor — aquele que, ao tentar ser eterno, se esquece de viver.
FIM.

Poesia Gótica por Alves Batista
A liberdade não clama,
ela se despedaça em silêncio,
como o ranger de um portão enferrujado
que o esquecimento consome, gota a gota.
O amor, quando perde as asas,
apodrece:
vira mármore,
cripta de gestos petrificados,
onde o afeto jaz sem pulsar,
sepulto sob véus de poeira.
Mas há noites em que apenas o incêndio da Águia
rompe o teto da ruína,
sangra o ar com suas brasas,
e o coração, exumado da treva,
ergue-se para respirar o abismo do céu.

Dead Can Dance – The Host of Seraphim
