Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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Textos

O CORVO E A ÁGUIA

O Amor Precisa de Ar

Conto Gótico por Alves Batista


 

I — A Mansão e o Silêncio

A Mansão Blackwood não era exatamente uma casa.

Era um organismo cansado — um pulmão úmido respirando mofo e mágoa no corpo do mundo.

Suas paredes suavam frio. O silêncio tinha sabor, e quem o provava sentia um leve gosto de ferrugem e eternidade.

Alistair e Eleanor viviam ali, como dois retratos esquecidos na moldura errada do tempo.

Chamavam-se de “marido” e “esposa”, mas essas palavras haviam se tornado rótulos descascados em frascos vazios.

Dormiam lado a lado, e mesmo o ar entre eles parecia morto — um véu de poeira sobre um amor fossilizado.

 

II — O Corvo

O Corvo de Alistair não era um pássaro.

Era uma extensão de sua carne, uma sombra emplumada que nascia de suas costas, com penas negras e úmidas como lágrimas.

O bico pousava perto de seu ouvido, e sua voz era a própria respiração da mansão.

— Ela não te ama — sussurrava o Corvo, com o hálito de cova antiga. — Ama a ideia do homem que poderias ter sido.

Tu és meu. Esta casa é nossa. Aqui, a imobilidade é o prêmio por quem renunciou à dor.

E Alistair, cansado, acariciava o pescoço da criatura.

A imobilidade era, de fato, um tipo de paz.

O Corvo alimentava-se de arrependimentos, e Alistair os tinha em abundância.

Cada lembrança de ternura virava pena, cada esperança abortada virava osso.

O homem e o animal eram um só: um corpo dividido entre a culpa e o hábito.

 

III — A Águia

Mas Eleanor carregava outra presença.

A Águia não vivia fora dela — vivia dentro.

Não era de carne nem de penas, mas de pura eletricidade.

Quando o desejo de fugir a dominava, a Águia despertava: um esqueleto de luz, ossos de raio e olhos de sol eclipsado, dilacerando-lhe o peito com a urgência de existir.

Seu chamado não era som — era uma ordem vibrando no ar:

Mova-se.

E quando ela se movia, a mansão tremia.

Eleanor passava os dias entre retratos amarelados e cortinas mofadas, lembrando-se de quando a casa era viva — quando o amor entre eles ainda acendia as lareiras e as conversas pareciam ter cor.

Agora, restava-lhe o eco dos próprios passos e o peso do olhar do Corvo sobre si.

À noite, ela sonhava com alturas.

Via-se pairando acima de penhascos, o vento rasgando o rosto, o mundo pequeno abaixo.

Acordava arfando, o coração batendo em asas, e sabia: a Águia estava chamando.

 

IV — O Crepúsculo da Decadência

A noite da ruptura veio púrpura e espessa, como se o céu tivesse apodrecido.

O que caía não era chuva, mas o pranto sólido das pedras do penhasco.

O mundo parecia derreter sobre a mansão — e a mansão, por sua vez, parecia gritar por dentro.

Eleanor sentiu a Águia nascer-lhe na espinha:

um clarão branco, ardente, que rasgou o vestido e incendiou o quarto em sombras vivas.

As cortinas se ergueram como asas em pânico, e o espelho rachou ao meio, como se o reflexo recusasse continuar prisioneiro.

— Para onde vais? — perguntou Alistair, a voz misturada à do Corvo.

O Corvo eriçou as penas, exalando o cheiro agridoce de ossos queimados.

— Ela não pode — sibilou. — É parte da decadência. Parte de nós.

Eleanor deu um passo. Cada movimento parecia um trovão contido.

A Águia dentro dela tremia em pura luz.

— Isto não é amor — disse ela, o rosto banhado por clarões. — É um túmulo polido.

Chamas de ternura não sustentam o ar de uma prisão.

O Corvo lançou-se dela, não como ave, mas como ideia.

Transformou-se em uma nuvem de letras negras e frases inacabadas, palavras que sibilavam culpas:

“Lá fora é solidão. Fica. O sofrimento é mais seguro que o vazio.”

A Águia não lutou.

Ela leu a escuridão.

Cada faísca de seu corpo respondeu com um verbo, cada clarão uma palavra de refutação.

E então disse — não com voz, mas com sentido:

“O sacrifício sem amor não é virtude. É covardia.”

 

V — O Último Ato

A nuvem de sombras se desfez em cinzas e voltou a se aninhar nas costas de Alistair, menor, sufocada.

Ele respirava com o esforço de quem carrega o próprio túmulo dentro do peito.

A mansão, sentindo o colapso, rangia como um animal moribundo.

Eleanor o olhou uma última vez.

Viu o homem — ou o que restava dele — e soube que o amor não morrera por falta de sentimento, mas por falta de movimento.

O amor precisa de ar. E eles haviam respirado apenas lembranças.

Ela tocou a maçaneta.

Era fria como o ferro de um esquecimento antigo.

A Águia bateu suas asas uma última vez, e a porta não se abriu — evaporou-se, virando pó de madeira e ferrugem.

Do outro lado, não havia paraíso, nem promessa: havia apenas o caos.

Mas era um caos dela.

Eleanor deu um passo para fora.

A Águia dissolveu-se em clarão e fundiu-se com o céu púrpura.

Estava livre — não para ser feliz, mas para ser inteira.

 

VI — O Homem e o Corvo

Dentro da mansão, Alistair caiu de joelhos.

O Corvo, agora fraco, arrastou o bico até seu ouvido.

— Vês? Lá fora é só outra forma de tempestade.

Mas Alistair não respondeu.

O vento que soprava pelas rachaduras trazia o eco distante de um trovão — o som das asas de Eleanor rasgando o firmamento.

E, pela primeira vez, ele percebeu: não odiava a fuga dela.

Invejava-a.

Olhou para o Corvo e percebeu que ele não estava fora de si.

Nunca estivera.

O Corvo era o nome que dera ao medo — e o medo, enfim, ganhara rosto.

Sentou-se no chão, exausto.

A mansão, ao redor, parecia respirar outra vez, um sopro baixo, como se o ar finalmente circulasse.

E pela primeira vez em anos, o silêncio não doía — apenas pesava.

 

VII — Epílogo: O Eco e o Voo

Quando a tempestade cessou, o céu amanheceu em cinza-ouro.

Eleanor caminhava pelo descampado, o vestido rasgado, a pele coberta de fuligem.

Acima dela, o céu ainda tremeluzia — fragmentos da Águia cintilando entre as nuvens, como constelações inacabadas.

Dentro da mansão, Alistair permaneceu.

Não sabia se ainda era homem, ou ruína.

Mas o Corvo, agora reduzido a sombra, já não falava.

Dormia, talvez para sempre.

E assim ficaram:

Ela, mulher-clarão, fundida ao horizonte;

Ele, homem-sombra, guardião das ruínas.

Dois símbolos de um mesmo amor — aquele que, ao tentar ser eterno, se esquece de viver.

 

FIM.

 

 

Epílogo poético

 

ABISMO CELESTE

Poesia Gótica por Alves Batista

 

A liberdade não clama,

ela se despedaça em silêncio,

como o ranger de um portão enferrujado

que o esquecimento consome, gota a gota.

 

O amor, quando perde as asas,

apodrece:

vira mármore,

cripta de gestos petrificados,

onde o afeto jaz sem pulsar,

sepulto sob véus de poeira.

 

Mas há noites em que apenas o incêndio da Águia

rompe o teto da ruína,

sangra o ar com suas brasas,

e o coração, exumado da treva,

ergue-se para respirar o abismo do céu.

 

 

Epílogo musical

Dead Can Dance – The Host of Seraphim

 

 

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 03/11/2025
Alterado em 10/01/2026
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