Ensaio por Alves Batista
Disseram-me que é impossível tocar o vento.
A frase soa como uma negativa…
Mas talvez seja também uma provocação.
Se não se pode tocá-lo —
como explicar a sensação que nos envolve quando ele roça a pele?
Será ausência… ou presença que escapa às formas?
O vento sempre inquietou a imaginação humana.
Os hebreus o chamavam 'ruach', o sopro divino.
Os gregos lhe deram deuses e nomes.
Para os povos nômades, era guia e ameaça —
trazia tanto alívio quanto tormenta.
O vento nunca foi apenas deslocamento de ar.
Era — e ainda é — linguagem.
Força invisível que revela o que não vemos.
Hoje, raramente paramos para senti-lo.
Corremos contra ele nas ruas.
Fechamos janelas para barrá-lo.
Ligamos ventiladores para domesticá-lo.
Mas será que ainda sabemos percebê-lo… como presença?
Certa tarde, parei num campo aberto.
O horizonte se dilatava em silêncio.
E o vento passava — quase imperceptível.
Fechei os olhos…
e estendi a mão, como quem espera um encontro.
O ar roçou meus dedos.
Não pude segurá-lo —
mas, por um instante, tive a impressão de que algo me segurava.
Esse gesto simples revelou um paradoxo:
o vento, que não tem forma, dá forma ao invisível.
Ele curva árvores, move nuvens, levanta ondas…
E, como já dizia Caymmi:
“Vento que dá na vela
Vela que leva o barco
Barco que leva a gente
Gente que leva o peixe
Peixe que dá dinheiro, Curimã.”
Na canção, o vento é também força de trabalho, destino e sobrevivência —
o mesmo sopro que move barcos e vidas.
E, ao tocar nosso rosto,
nos lembra que estamos vivos.
Não o vemos,
mas sentimos sua força.
Não o possuímos,
mas ele nos envolve.
Talvez seja por isso que esquecemos seu valor:
porque não pode ser capturado.
Numa era que mede tudo em dados,
o vento resiste —
como aquilo que só pode ser sentido.
Não cabe em telas.
Não se fixa em arquivos.
Ele passa.
E é justamente nesse passar
que revela sua essência.
Pergunto a você:
Quando foi a última vez que deixou o vento bagunçar seus cabelos — sem pressa?
Ou que se permitiu escutá-lo nos galhos — como música sem partitura?
Ou que respirou fundo,
deixando-se levar por ele,
como se fosse um abraço invisível?
Tocar o vento não é aprisioná-lo entre as mãos.
É entregar-se ao instante em que ele toca você.
É aceitar que certas presenças
só se revelam quando não exigimos posse —
apenas acolhimento.
O vento, afinal, é metáfora da própria vida:
invisível, incontrolável… mas plenamente real.
Ele nos ensina que estar vivo
não é deter forças —
é deixar-se atravessar por elas.
Talvez, então,
tocar o vento seja uma arte:
a arte de estar disponível ao efêmero,
ao que não se repete,
ao que passa
— e, no entanto, transforma.
Porque o vento continua a soprar.
E talvez, só talvez,
ainda espere
que voltemos a senti-lo.