Artigo por Alves Batista
Vivemos na era da curadoria perfeita. Os feeds são personalizados, as rotas otimizadas, nossas preferências antecipadas por sistemas de inteligência artificial. Tudo parece organizado para o nosso suposto bem-estar. Mas surge uma pergunta desconfortável, ecoando no silêncio de nossos dispositivos: por que, em meio a tanta eficiência, cresce uma sensação de vazio e deslocamento?
A promessa da personalização ilimitada esconde uma contradição fundamental: quanto mais a vida é otimizada, mais estranha ela se torna para o próprio sujeito. O filósofo Byung-Chul Han descreve essa lógica como a tirania da transparência, onde tudo deve estar visível, controlável, eficiente. Mas nesse excesso de clareza, o indivíduo perde a profundidade e a autenticidade.
No ambiente digital, a felicidade não é mais uma experiência, mas um objetivo de performance. A saúde mental transforma-se em indicador a ser monitorado; as emoções, em métricas de produtividade. Como já denunciava Foucault, o poder contemporâneo não se exerce apenas pela repressão, mas pelo convite constante à auto-otimização.
Assim, emoções como tédio, angústia ou dúvida existencial — fundamentais para a criação e para a reflexão — são deslegitimadas. O sujeito contemporâneo adoece de uma nova síndrome: a culpa por não ser feliz em um mundo que lhe oferece todas as ferramentas para sê-lo.
Dessa pressão nasce um desdobramento inquietante: a fragmentação do eu. De um lado, o avatar digital, uma persona cuidadosamente curada, moldada por algoritmos e apresentada em feeds. De outro, uma consciência interior que observa essa performance com crescente estranhamento.
Esse hiato gera a pergunta mais angustiante de nosso tempo: “Quem sou eu, quando a vida se reduz a escolhas pré-selecionadas?” Kierkegaard já advertia que o maior desespero não é não ser feliz, mas perder-se de si mesmo. Na era dos algoritmos, essa advertência ganha nova urgência.
Se a modernidade produziu o “indivíduo de massa” (como lembrava Ortega y Gasset), nossa era digital inventou a solidão hiperconectada. Estamos sempre falando, mas raramente sendo ouvidos; sempre vendo, mas sem sermos vistos em nossa integralidade.
A multidão digital substitui o encontro humano pela interação sem fricção, lisa, previsível. O acaso, a imperfeição e até o incômodo do contato real cedem lugar à padronização algorítmica. Daí surge uma nostalgia do real — uma saudade daquilo que não pode ser previsto.
A solução não está em destruir a tecnologia, mas em romper nossa servidão voluntária a ela — para lembrar La Boétie. O antídoto para o mal-estar algorítmico talvez seja reabilitar justamente aquilo que os sistemas tentam eliminar: o acaso, o silêncio, a desordem criativa.
É preciso reivindicar o direito ao tédio fértil, à emoção desmedida, ao encontro imprevisível. A vida plena não é aquela em que tudo está em seu lugar, mas aquela em que ainda temos o direito de nos perder — e, nesse perder-se, reencontrar o que há de mais humano.
Porque o verdadeiro desespero não é o caos, mas a quietude asséptica de uma prisão que se disfarça de parque de diversões.
HAN, Byung-Chul. 𝗔 𝗦𝗼𝗰𝗶𝗲𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗼 𝗖𝗮𝗻𝘀𝗮ç𝗼. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.
FOUCAULT, Michel. 𝗩𝗶𝗴𝗶𝗮𝗿 𝗲 𝗣𝘂𝗻𝗶𝗿: 𝗡𝗮𝘀𝗰𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗮 𝗣𝗿𝗶𝘀ã𝗼. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2014.
KIERKEGAARD, Søren. 𝗢 𝗗𝗲𝘀𝗲𝘀𝗽𝗲𝗿𝗼 𝗛𝘂𝗺𝗮𝗻𝗼.Tradução de Carlos Grifo Bigotte. Lisboa: Presença, 2006.
ORTEGA Y GASSET, José. 𝗔 𝗥𝗲𝗯𝗲𝗹𝗶ã𝗼 𝗱𝗮𝘀 𝗠𝗮𝘀𝘀𝗮𝘀. Tradução de Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
LA BOÉTIE, Étienne de. 𝗗𝗶𝘀𝗰𝘂𝗿𝘀𝗼 𝗱𝗮 𝗦𝗲𝗿𝘃𝗶𝗱ã𝗼 𝗩𝗼𝗹𝘂𝗻𝘁á𝗿𝗶𝗮. Tradução de Laymert Garcia dos Santos. São Paulo: Brasiliense, 2021.
ZUBOFF, Shoshana. 𝗔 𝗘𝗿𝗮 𝗱𝗼 𝗖𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗱𝗲 𝗩𝗶𝗴𝗶𝗹â𝗻𝗰𝗶𝗮: 𝗔 𝗟𝘂𝘁𝗮 𝗽𝗼𝗿 𝘂𝗺 𝗙𝘂𝘁𝘂𝗿𝗼 𝗛𝘂𝗺𝗮𝗻𝗼 𝗻𝗮 𝗡𝗼𝘃𝗮 𝗙𝗿𝗼𝗻𝘁𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗱𝗼 𝗣𝗼𝗱𝗲𝗿. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.