Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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DICOTOMIA

Conto por Alves Batista


 

O silêncio na sala era mais espesso que a velha jaqueta de Pedro, pendurada atrás da porta. Ele observava Juliana do outro lado da mesa da cozinha, os olhos fixos na xícara de café entre suas mãos. O vapor era apenas uma lembrança de minutos atrás, e a superfície escura e imóvel do líquido funcionava como um espelho opaco para o vazio entre eles.

— O café esfriou — disse ele, a voz soando como um ruído estranho naquela quietude.

Ela nem sequer ergueu o olhar.

Era sempre assim. Um muro de gelo que ele, outrora, tentara escalar com desculpas e flores compradas na feira das quintas. Agora, também já não tentava mais. O colchão, envolto em arame farpado, onde dormiam juntos e separados, tornara-se rotina.

Seus olhos permaneceram na xícara de Juliana. Aquele café frio lhe trouxe lembranças de uma década atrás. Não havia sido uma paixão avassaladora, mas um alívio covarde. Uma pessoa com um sorriso que não pedia nada, que o fez se sentir desejado — palavra apagada do dicionário doméstico.

A faca cortou os dois lados.

Sentiu-se miserável pelo ato, e Juliana, intuitiva como sempre, soube sem que uma palavra fosse dita. A partir daí, a montanha de gelo se formou.

Ela não gritou. Não exigiu explicações. Apenas se retirou, tornando-se uma figurante silenciosa da própria história. Agora, ele notava um leve tremor nos dedos dela, como se segurar aquela xícara fosse um esforço. Um sacrifício feito pela ilusão de segurança. Um medo da solidão maior que a que já habitava nela.

O foco subiu para as mãos dela.

Como ele desejava que o tocassem com afeto genuíno.

O sacrifício de permanecer estava ficando mais difícil a cada dia. O conforto era uma mentira. A segurança, uma prisão.

Levantou-se, a cadeira de madeira rangendo sobre o piso de ardósia. O som ecoou na sala como um ponto final.

— Vou embora — disse.
Não como uma declaração, mas como um fato consumado.

Juliana ergueu os olhos. As lágrimas e a raiva haviam se dissolvido no tempo. Restava apenas um cansaço demorado e talvez o sonho de um alívio — ou apenas o reconhecimento final de uma guerra silenciosa que ambos haviam perdido.

Ele pegou a jaqueta e saiu, deixando a porta entreaberta.

Lá fora, a frieza da noite não excedia o zero absoluto do interior da casa. Contudo, era um frio que prometia um novo começo, ainda que solitário.

Percebeu, então, que o maior sacrifício não era ficar ou ir embora.
Era o tempo perdido tentando escolher entre uma dor e outra.

 

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 30/09/2025
Alterado em 10/01/2026
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