Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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Textos

A CAIXA DE PANDOIA(RA)

Um causo bem brasileiro

Por Alves Batista


 

Rapaz, puxa a esteira e senta, que eu vou lhe contar uma de Santana do Cabrobó, num tempo em que bode usava canga e galinha tirava CPF.

Morava lá o Zé Bodó, cabra sabido que só, mas curioso que nem menino em feira de brinquedo. Não podia ver pacote fechado ou segredo guardado que já ficava com o dedo coçando. Uma vez, abriu marmita alheia pensando que era presente.

— levou foi garfada no beiço e quase perdeu o juízo.

Mas aprender que era bom, nada.

 

A caixa misteriosa

Pois num sábado de sol brabo, apareceu na venda do Seu Firmino uma caixa bonita, cheia de desenho dourado e uns escritos em grego, francês e até japonês. O dono, que mal sabia assinar o nome, arriscou:

— Aqui tá dizendo… “Pan-dóia”.

O povo se ajuntou que nem abelha em melado:

— Isso é nome de remédio pra caruncho!
— Não, é cantora de rádio, tenho certeza!
— É caixa de promessa, só pode!

Embaixo da caixa, um bilhete claro que nem água de pote:

“Não abra, nem por reza braba.”

Adivinha quem se meteu?

 

A curiosidade venceu

Zé Bodó, é claro!

Olhou, coçou o cangote, estalou os dedos e decretou:

— Se num pode abrir, é porque tem coisa boa dentro. Esse nome aí é conversa fiada, deve ser a prima rica de Pantoja, lá da capitá!

Lascô.

Quando abriu, não saiu ouro nem diamante. Saiu foi um vento danado, parecia que tinha soltado a alma da fofoqueira da vila, a dívida do carnê e a dor de dente de madrugada — tudo junto.

Voou mosquito da dengue de fraque, formiga-lava-pés com doutorado, e até político prometendo asfalto em estrada de ferro.

 

O caos se espalha

O povo correu em desespero.
O padre benzeu até o vento.
A benzedeira desmaiou com a mão no peito e o olho virado.

E Zé Bodó?

Ficou com a tampa na mão e a cara de tacho, de quem colocou sal no abacate achando que era açúcar.

 

O que restou no fundo

Mas lá do fundim da caixa saiu uma luzinha miúda, piscando feito vaga-lume em noite de São João.

Era a esperança.

Zé Bodó olhou e disse:

— Essa eu conheço. É igual minha mulher: pequena, briguenta, mas nunca me larga e sempre aparece na hora do aperreio.

 

Moral (ou quase isso)

Desde então, Santana do Cabrobó vive com os males soltos — mosquito, calote, político — mas também com a esperança, firme e teimosa.

Zé Bodó virou lenda. Dizem que guarda a caixa trancada a sete chaves…
mas usa de banquinho pra pescar tilápia no açude.

Se duvida, vá lá e pergunte.
Mas se ele te pedir pra sentar na caixa, meu amigo…

Corra.

Corra que nem siri fugindo da rede.

 

(Fim)

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 10/09/2025
Alterado em 09/01/2026
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