Crônica Social por Alves Batista
No alto de um vilarejo esquecido, entre pedras e capins,
vivia um senhor idoso chamado Bento.
Não era herói, nem político, nem soldado.
Apenas um lavrador com mãos calejadas
e olhos que já tinham chorado lágrimas de fogo.
Mas no Sete de Setembro, Bento acordou
com um peso diferente no peito.
— Independência ou morte... — murmurou, olhando para o alto.
Lá, o céu ainda decidia se queria ser azul ou cinza.
No vilarejo, o povo se enfeitava para o desfile.
Crianças agitavam bandeirinhas,
adultos vestiam camisetas patrióticas,
e um carro de som berrava hinos
na tentativa de convencer até as pedras no caminho.
Era barulho, era festa.
Bento não foi.
Sentou-se na sombra do seu pé de jatobá
e começou a escrever uma carta.
Não era para o governo, nem para a história —
era para o tempo.
“Já raiou a Liberdade, cantam.
Liberdade? Liberdade pra quem?
Pra mim, que planto e não como tudo o que colho?
Pra minha neta, que estuda e não tem onde trabalhar?
Pra meu vizinho, que depende de um remédio que nunca chega?
Ou para você, que lê e sente correntes invisíveis arranhar seus tornozelos?”
Enquanto escrevia, lembrava:
do pai, que morreu esperando aposentadoria;
da mãe, que ensinou a ler com páginas arrancadas de jornal;
e de João, o amigo que foi embora para a cidade grande
e nunca mais voltou —
talvez tenha morrido de saudade, talvez de salário mínimo.
O velho Bento sabia:
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” — cantam até hoje.
Mas das margens túrbidas do jatobá, outra voz se ergueu:
esse rio nunca lavou a alma
de quem segue acorrentado por desigualdade, descaso
e promessas que nunca viraram pão.
Ainda assim, ele sabia:
morrer não era apenas parar de respirar.
Morrer era deixar de sonhar.
E isso, ele não faria.
“Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil,
eu escolho viver com dignidade.
Eu escolho plantar esperança, mesmo que o solo seja seco.
Eu escolho ensinar meus netos que liberdade não é bandeira,
é atitude.”
Dobrou a carta, colocou dentro de uma garrafa
e enterrou aos pés daquela árvore centenária.
Não queria que ninguém lesse agora.
Queria que o tempo encontrasse.
Que um dia, alguém cavasse ali e dissesse:
“Aqui viveu um homem livre, mesmo sem ter sido liberto.”
E quando o sol se pôs,
o vilarejo ainda ecoava marchas,
mas Bento olhou o horizonte e sorriu.
Porque naquele Sete de Setembro,
ele não marchou — resistiu.
E isso, às vezes,
é a forma mais pura e silenciosa de independência.
Este conto é uma homenagem sincera
a dois mestres da palavra e do pensamento:
João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves.
Nesta sequência, quem conhece sabe o porquê.
Que os céus proclamem eternamente as vossas genialidades —
pois aqui na terra, elas continuam a ecoar
em cada silêncio que pensa
e em cada verso que resiste.