Cronica Social por Alves Batista
Inspirado no texto:
Ana Jansen e a carruagem assombrada de São Luís, de Erasmo Shallkytton.
Maranhão, 1868
Meu nome é Jacinta.
Filha de Maria da Encarnação, neta de Joana de Angola.
Nasci na Fazenda Santo Antônio, onde o algodão florescia vermelho.
Não de flor — de sangue.
Cresci sob o olho da Donana.
Rainha do algodão, senhora de homens, dona de almas.
Diziam que era bonita.
Eu só via os dentes cerrados, os olhos frios,
a mão que apontava quem ia morrer.
Ela gostava de inventar castigos.
Não bastava o tronco, o chicote, o ferro em brasa.
Ela queria espetáculo.
Queria que a dor fosse pública,
que o gemido ecoasse na varanda enquanto ela tomava café com visitas.
Naquela terra, a cana crescia doce — regada com suor salgado.
E nós éramos a moenda.
A carne que se espremia até não restar nada.
Lembro do dia em que o velho Benedito caiu no campo, exausto.
A Donana chegou na carruagem — toda preta, puxada por cavalos negros, como um enterro.
Desceu com o vestido arrastando na poeira, cheirando a flor e morte.
— Levanta, seu velho inútil! — gritou.
Ele não levantou.
Ela ordenou que o amarrassem atrás da carruagem.
— Vou te dar um passeio, Benedito. Vais conhecer a estrada.
Ninguém olhou nos olhos de ninguém.
O coração batia na garganta, seco.
Ouvi o arrastar do corpo dele pela estrada de chão batido,
o rangido das rodas,
o silêncio dos que ficaram.
Ela não olhou para trás.
Nunca olhava.
À noite, ela chamava as mulheres negras para pentear seus cabelos loiros.
Dizia que eram mãos boas, que sabiam fazer tranças.
Mas se um puxão doía, se uma agulha arranhava,
a mesma mão que trançava virava chumbo.
Era o porão, o tronco, o tacho de água fervente.
Um dia, a pequena Luísa, de oito anos, derrubou a xícara de chá.
A porcelana quebrou — um estalo fino, como osso se partindo.
A Donana não gritou.
Sorriu.
— Tu vais aprender a prestar atenção, negrinha.
Amarrou as mãos da criança, pendurou-a no galho de um jatobá.
Colocou um balde de água salgada aos seus pés.
— Cada vez que eu bater no sino, tu bebes.
Bebeu até inchar, até arder por dentro, até vomitar o próprio pranto.
E a Donana ria, com seus vestidos de renda,
sua sombra alongada no terreiro.
Não havia lei.
Não havia Deus.
Só havia ela — e o medo dela.
Ela morreu em 1869.
Dizem que enterraram seu corpo dentro da igreja, com honras.
Nós enterramos a notícia no fundo do peito, com desconfiança.
Será?
Será que ela morreu mesmo?
E as histórias?
Dizem por aí que, nas madrugadas de quinta para sexta-feira,
uma carruagem preta percorre as ruas silenciosas de São Luís.
Puxada por dois cavalos sem cabeça.
Guiada por um cocheiro decapitado.
Ela não fala.
Ela não para.
Ao amanhecer, mergulha na Lagoa da Jansen —
empurrada pelo tempo,
procurando, na água, seu abrigo.
Assombração?
Só se assombra quem não a conheceu em vida.
Quem conheceu...
carrega a verdadeira assombração:
a alma impregnada por seus vultos sombrios.
Hoje, sou velha.
Meus pés já não correm, mas ainda caminham.
Carrego suas marcas tridimensionais:
no corpo, na alma e no espírito.
E sei:
algumas correntes não se quebram com lei.
Algumas senzalas não são de madeira — são de memória.
E a liberdade?
A liberdade é uma estrada longa.
E nós ainda estamos nela.
Descalços.
Mas caminhando.
Esta é uma obra de ficção.
Embora inspirada em contextos históricos reais e na memória coletiva da escravidão no Brasil, os personagens, eventos e locais descritos neste conto são fruto da imaginação do autor.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou falecidas, ou com fatos específicos, é mera coincidência ou resultado de construção literária.
A narrativa busca evocar os traumas, silêncios e resistências que marcaram gerações, sem pretensão de representar documentos históricos ou relatos verídicos.
A presença de elementos sobrenaturais, como a carruagem fantasmagórica, serve como metáfora para os fantasmas da memória — aqueles que continuam a assombrar, não pelas lendas, mas pelas verdades que ainda ecoam.
Este conto é um tributo à ancestralidade, à dor que não se apaga, e à liberdade que ainda se constrói — passo a passo, palavra por palavra.