Crônica Social por Alves Batista
Brasil, 1889
Nasci livre, disseram.
A tal da Lei do Ventre Livre me deu esse título.
Mas cresci na senzala escura e úmida,
ao lado da minha mãe, que continuava escrava.
Livre, mas preso ao destino dela.
Sentindo o cheiro azedo do suor seco,
da terra molhada e da carne cansada, eu respirava.
O rangido das correntes ao longe era a cantiga de ninar que eu ouvia.
Diziam que eu só poderia sair dali aos 21 anos.
Até lá, era mão de obra garantida.
Meu corpo pequeno, de pés calejados pela terra áspera,
já carregava o peso da mentira.
Eu via os senhores, com suas botas lustrosas cheirando a graxa e couro,
engravidarem as mulheres negras
como quem planta uma semente no solo para colher escravos.
A lei era só fachada,
uma pintura fresca sobre madeira podre.
Diziam que era pra inglês ver.
Pois bem, eu vi.
E vi muito mais.
Vi meu avô, com seus ossos trêmulos e olhos embaçados,
ser jogado na rua em 1885.
A tal Lei dos Sexagenários o libertou.
Libertou?
Ele saiu com a roupa do corpo,
um farrapo gasto que cheirava a fumo e lágrimas,
sem saber pra onde ir.
Já não tinha força pra trabalhar,
e ainda assim, devia ao antigo dono três anos de serviço.
Três anos!
O eco da dívida era mais pesado que qualquer corrente.
Como se a liberdade fosse uma dívida.
Como se a vida inteira de trabalho não tivesse valor.
E então veio 1888.
A Lei Áurea.
O som dos sinos da cidade ecoou,
diferente daquele badalo oco da senzala.
A assinatura que virou festa nos salões,
mas não lá onde eu estava.
Nós saímos como entramos: sem nada.
Nenhum pedaço de terra,
nenhum tostão,
nenhum pedido de desculpas.
Só a rua poeirenta sob os pés.
Só o mundo, vasto e assustador, que nunca foi nosso.
Eu andei por ele com os pés descalços
e o coração cheio de perguntas.
Em qual casa irei me abrigar?
Qual escola irá me ensinar?
Qual ofício poderei escolher?
Analfabeto como meus pais, como meus irmãos.
O mundo era um livro fechado.
Livre, mas sem eira nem beira.
Trabalhei a vida inteira sem salário,
recebendo só um canto escuro pra dormir,
um trapo áspero e sujo pra vestir
e comida insípida, sempre a mesma, pra não cair.
Mas nunca manga com leite — diziam que fazia mal.
Como se fosse isso que nos matava.
No dia em que saímos?
A sinhá chorou!
Não por nós.
Chorou pelos vestidos que não teriam mais quem os passasse.
Chorou pelo café que ia esfriar.
Eu não chorei.
Olhei pro portão de madeira grossa,
para a estrada poeirenta lá fora.
E não sabia se podia sair.
Então, saí.
Com a manga na mão.
O leite, não.
Na estrada, outros como eu.
Uns com esperança nos olhos,
outros com raiva fermentando na boca do estômago.
Todos com sede.
A liberdade era isso: sede sem fonte.
Um ano se sucedeu, tomei manga com leite.
Fiz questão.
O gole foi doce, fresco, proibido.
Não morri.
Mas chorei.
Não pelo gosto.
Pela mentira.
