Poema por Alves Batista
Amado amor,
Com a tinta quente do corpo,
essa substância sem nome
que reconheci a aprender
vendo teus dedos traçarem distâncias
sobre minha pele desmemoriada.
Escrevo-te.
Teu nome é o que permanece
quando a noite esfria o assoalho
e o tempo se dissolve
no tique-taque do relógio vazio.
Não me fales de paixão:
fala-me da fome antiga,
pão que sangra migalhas na penumbra,
da faca que afia seu fio
no osso curvo do meu silêncio
e ainda assim me ensina
a cortar a própria carne
sem fazer ruído.
Amor, não me ensines a sobreviver.
Apenas seca meu suor com teu hálito
e chama de “lar”
este abismo onde nos desabitamos.