Crônica por Alves Batista
A gente acorda.
A cidade já está de pé.
O sol ensaia sua chegada no horizonte,
espalha raios de luz pelas frestas da janela.
Elas se esticam pelo quarto,
como se quisessem tocar o chão.
De repente, parecem régua improvisada,
medindo a poeira que dança no ar.
A buzina do ônibus.
O latido do cachorro da vizinha.
O som estridente da porta do elevador.
O corpo se estica todo —
é a tal da espreguiçada.
O peso da noite se desfaz.
Cheiro de café passando, vem da cozinha.
Primeira promessa do dia.
Convite para a vida real:
café quente, pão com manteiga
e coragem de encarar o espelho.
Olha, se olha.
Vê as marcas que o tempo deixou.
Olhos pouco inchados, cabelo amassado.
Retrato sincero do que somos,
antes do sorriso se tornar máscara
para enfrentar o dia.
O cotidiano tem suas magias.
Misto de repetição e surpresas.
Caminho para o trabalho.
Vendedor de bala no sinal.
Barulho das crianças indo para escola.
De repente:
Isso eu não vi ontem.
Um novo grafite no muro da escola.
Pequenos flashes de beleza
que se escondem na rotina.
O dia passa.
Faz o que precisa ser feito.
Trabalho.
Contas.
Tarefas.
No meio disso tudo,
tempo para sonhar.
A próxima viagem.
O novo livro.
Pessoas para abraçar.
Pequenos oásis de esperança
no deserto da vida adulta.
A cidade se acalma.
Na verdade, ela nunca dorme.
Luzes nas janelas se acendem,
como estrelas a iluminar os lares com esperança.
A gente volta para casa, cansado.
Sensação de dever cumprido.
Sapos engolidos sem má digestão.
Pode não ter sido extraordinário,
mas foi um dia de verdade.
Dia em que o sol entrou pela fresta da manhã.
Testemunha de tudo,
sem o enrosco das nuvens.
Agora? Ele se pôs.
Deixa para trás a certeza:
A vida, com toda sua simplicidade e complexidade,
é feita desses singelos e insignes momentos.
Só precisa de coragem para encará-los,
dia após dia.
Um bom café para começar.