Causo por Alves Batista
Lá nos cafundó do Espírito Santo, num lugar chamado São João do Espirro — cidade tão pequena que só aparecia no GPS se você espirrasse forte e o vento abrisse a nuvem do mapa (e mesmo assim, com fé) — chegou uma turma de peão pra montar uma obra que ia “mudar a história do lugar”, segundo o prefeito.
Cá pra nois... mudou nada.
Mas o boteco do Gordo enriqueceu tanto que trocou a velha máquina de músicas por uma Alexa e passou a vender azeitona importada — de Vila Velha, claro.
Na cidade, o ar era tão quente que até o ventilador da prefeitura pediu férias.
Era poeira fina no pulmão e aquele cheirinho de terra molhada que só aparecia quando o caminhão pipa passava desfilando feito escola de samba.
O som era uma sinfonia da baderna:
No meio desse pandemônio, dois cabras se destacavam como piolhos em cabeça raspada:
Com menos de duas semanas na cidade, os dois já tinham:
Dizem que era apelido do Zé.
Mas ninguém sabia se era por carinho, ironia... ou erro de digitação.
Seu Estanislau, diretor da empreiteira, homem da capital, MBA em três idiomas e paletó que suava mais que porco em véspera de ceia, resolveu visitar a obra.
Logo percebeu algo estranho:
As moças da cidade andavam com sorrisinho bobo, roupa nova e cheiro de sabonete — tudo em volta da obra.
Mas perto dele? Nada. Nem um “boa tarde”.
Até o vento parecia rir da cara dele.
No terceiro dia, derrotado e suando lavanda, desabafou no refeitório:
— Senhores... preciso entender qual é o segredo de vocês. Eu tenho MBA, terno passado, perfume francês e bombom importado. E vocês, de chinelo e bafo de paçoca, tão mais rodeados que panela de pipoca em festa junina!
Zé da Broca se ajeitou e respondeu:
— Doutor... o senhor tá querendo caçar onça com vara de pescar. Aqui, o que pega mesmo é o bom e velho Cerca Lourenço.
Galego, com ares de poeta bêbado, explicou:
— Cerca Lourenço, homem! Cê vai dando volta, falando bonito, elogiando o céu, o cabelo, o jeito de segurar o copo... até a moça se perder e achar que o senhor é um príncipe encantado que largou o castelo pra virar peão.
E completou, dramático:
— O amor, doutor, é um laço invisível que aperta o coração feito cadarço de sapato velho, molhado de chuva e amarrado por sogra nervosa...
Zé finalizou com estilo:
— Aqui a gente não diz “quero te beijar”. A gente diz:
“Sabia que no Japão as pessoas dormem em pé nos trens? Mas nenhuma delas me deixou tão sem rumo quanto o jeito que cê enrola o cabelo com o dedo quando tá pensando…”
— PÁ! Pronto. É nessa hora que ela ri, morde o beiço... e o senhor finca!
— Finca? — perguntou o doutor, suando até pelas ideias.
— Finca o charme, doutor! Mulher aqui é igual cerca de arame farpado: se for afoito, se arrebenta. Tem que ir enroscando... com jeitinho.
Empolgado, o doutor passou horas ensaiando falas no espelho do hotel — mais embaçado que futuro de político honesto.
No dia seguinte, abordou a garçonete da lanchonete:
— Você sabia que a lua hoje tá em Capricórnio e que seu sorriso é um eclipse que bagunça minha maré emocional...?
Ela piscou, bufou e respondeu:
— Quer um misto quente ou vai continuar filosofando com bafo de café?
Quem só sabe falar bonito no computador, nunca vai aprender a conquistar no pé do ouvido.
E até hoje, no barracão da obra, ainda tá escrito com carvão na parede do banheiro:
“Aqui morreu o doutor, que quis fincar com filosofia barata.”
Causo inspirado nas artimanhas do interior, no jeito interiorano de conversar fiado e na sabedoria popular que não se aprende em palestra de autoajuda nem em MBA gringo.
Se alguém aí souber onde o doutor foi parar, avisa que a viúva do vereador ainda pergunta por ele...
Mas dessa vez, usando gloss.
Causo em homenagem ao Trovador das Alterosas, aquele abraço!