Alves Batista
— "Escrevo para entender — para entender, escrevo." (Alves Batista)
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DIÁRIO DO CERCA LOURÊNÇO

Dois peões, um doutor e muita conversa fiada

Causo por Alves Batista


 

A Cidade Que Só Aparece com Espirro

Lá nos cafundó do Espírito Santo, num lugar chamado São João do Espirro — cidade tão pequena que só aparecia no GPS se você espirrasse forte e o vento abrisse a nuvem do mapa (e mesmo assim, com fé) — chegou uma turma de peão pra montar uma obra que ia “mudar a história do lugar”, segundo o prefeito.

Cá pra nois... mudou nada.
Mas o boteco do Gordo enriqueceu tanto que trocou a velha máquina de músicas por uma Alexa e passou a vender azeitona importada — de Vila Velha, claro.

Poeira, Barulho e Dois Cabras Inesquecíveis

Na cidade, o ar era tão quente que até o ventilador da prefeitura pediu férias.
Era poeira fina no pulmão e aquele cheirinho de terra molhada que só aparecia quando o caminhão pipa passava desfilando feito escola de samba.

O som era uma sinfonia da baderna:

  • Trator roncando mais que velho em rede
  • Caminhão de areia tossindo engrenagem
  • Tijolo rangendo no sol
  • Betoneira berrando mais alto que bezerro desmamado

No meio desse pandemônio, dois cabras se destacavam como piolhos em cabeça raspada:

  • Zé da Broca: engenheiro autodidata, três pregos, um cigarro de palha e uma dor nas costas que o seguia como sombra de meio-dia.
  • Galego de Aracruz: loiro de sol e poeira, lábia afiada, mais projetos que o "Minha Casa Minha Vida".

O Efeito Colateral da Obra

Com menos de duas semanas na cidade, os dois já tinham:

  • Desvirtuado o coral da igreja (substituíram o hino por “Evidências”)
  • Encantado a viúva do vereador (agora de batom vermelho e risada escandalosa)
  • Inspirado a filha do padeiro a tatuar “Broquinha” no tornozelo

Dizem que era apelido do Zé.
Mas ninguém sabia se era por carinho, ironia... ou erro de digitação.

A Chegada do Doutor

Seu Estanislau, diretor da empreiteira, homem da capital, MBA em três idiomas e paletó que suava mais que porco em véspera de ceia, resolveu visitar a obra.

Logo percebeu algo estranho:
As moças da cidade andavam com sorrisinho bobo, roupa nova e cheiro de sabonete — tudo em volta da obra.
Mas perto dele? Nada. Nem um “boa tarde”.
Até o vento parecia rir da cara dele.

A Revelação do Método

No terceiro dia, derrotado e suando lavanda, desabafou no refeitório:

— Senhores... preciso entender qual é o segredo de vocês. Eu tenho MBA, terno passado, perfume francês e bombom importado. E vocês, de chinelo e bafo de paçoca, tão mais rodeados que panela de pipoca em festa junina!

Zé da Broca se ajeitou e respondeu:

— Doutor... o senhor tá querendo caçar onça com vara de pescar. Aqui, o que pega mesmo é o bom e velho Cerca Lourenço.

Galego, com ares de poeta bêbado, explicou:

— Cerca Lourenço, homem! Cê vai dando volta, falando bonito, elogiando o céu, o cabelo, o jeito de segurar o copo... até a moça se perder e achar que o senhor é um príncipe encantado que largou o castelo pra virar peão.

E completou, dramático:

— O amor, doutor, é um laço invisível que aperta o coração feito cadarço de sapato velho, molhado de chuva e amarrado por sogra nervosa...

Zé finalizou com estilo:

— Aqui a gente não diz “quero te beijar”. A gente diz:
“Sabia que no Japão as pessoas dormem em pé nos trens? Mas nenhuma delas me deixou tão sem rumo quanto o jeito que cê enrola o cabelo com o dedo quando tá pensando…”
— PÁ! Pronto. É nessa hora que ela ri, morde o beiço... e o senhor finca!

— Finca? — perguntou o doutor, suando até pelas ideias.

— Finca o charme, doutor! Mulher aqui é igual cerca de arame farpado: se for afoito, se arrebenta. Tem que ir enroscando... com jeitinho.

A Tentativa e o Tombo

Empolgado, o doutor passou horas ensaiando falas no espelho do hotel — mais embaçado que futuro de político honesto.

No dia seguinte, abordou a garçonete da lanchonete:

— Você sabia que a lua hoje tá em Capricórnio e que seu sorriso é um eclipse que bagunça minha maré emocional...?

Ela piscou, bufou e respondeu:

— Quer um misto quente ou vai continuar filosofando com bafo de café?

Moral do Causo

Quem só sabe falar bonito no computador, nunca vai aprender a conquistar no pé do ouvido.

E até hoje, no barracão da obra, ainda tá escrito com carvão na parede do banheiro:

“Aqui morreu o doutor, que quis fincar com filosofia barata.”

 


 

Nota do Autor

Causo inspirado nas artimanhas do interior, no jeito interiorano de conversar fiado e na sabedoria popular que não se aprende em palestra de autoajuda nem em MBA gringo.

Se alguém aí souber onde o doutor foi parar, avisa que a viúva do vereador ainda pergunta por ele...
Mas dessa vez, usando gloss.

Causo em homenagem ao Trovador das Alterosas, aquele abraço!

 

 

Alves Batista
Enviado por Alves Batista em 03/08/2025
Alterado em 12/03/2026
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