Poema em homenagem às mulheres
Por Alves Batista
“Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?”
— Jó 38:4
Na vida da mulher
há um fio secreto,
tecido de corpo e sopro,
de ordem e vertigem.
Ela caminha por dois caminhos
que não se opõem:
entrelaçam-se
como raízes que se reconhecem
no escuro da terra.
Um deles conhece a medida:
o pão partido com cuidado,
o gesto que aprende a esperar.
É mão que sustém,
palavra que se aquieta
para caber no mundo.
O outro não sabe conter-se:
arde, dança, inventa.
É voz que nasce sem mapa,
canto que se lança
onde a noite ainda não tem nome.
A mulher —
atenta ao que pulsa e ao que dura —
guarda o encontro.
Em seu centro,
o fim se torna origem
a cada semente que brota —
outras dormem ao fundo da mão.
Não escolhe entre céu e chão:
recolhe estrelas e raízes
no mesmo cesto.
Sua história é rito invisível:
um corpo que celebra,
uma alma que pressente
o que não termina.
Assim, ela segue inteira.
O que nela parece oposto
apenas se alterna
como a respiração do mundo:
hora recolhimento,
hora incêndio.
E o divino se insinua
tanto no que se ordena
quanto no que transborda.
No fundo —
onde o tempo se desfaz —
uma voz quase sem voz murmura:
Tudo é passagem.
Tudo é procura.
E no coração da mulher —
— — —
o que se divide
talvez seja apenas
um gesto
da mesma eternidade.
“Viva agora as perguntas.”
Rainer Rilke — Cartas a um jovem poeta
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