Cordel por Alves Batista
Peço licença ao destino
e aos santos deste lugar,
pra contar uma verdade
que faz muito rico suar.
Se não tiver boa risada,
não prometo continuar.
O prazer é fumaça rala
que se perde ao clarear.
O poder é a sela frouxa
que derruba ao galopar.
E não tem um arrogante
que não caia ao tropeçar.
O relógio não faz trato,
muito menos adulação.
Não indaga se é doutor
ou se manda na nação.
Ele chega forte e justo,
feito a foice no feijão.
Uns confiam no sermão,
outros vivem de fachada.
Pecam forte no domingo,
com perdão na alvorada.
Mas o tempo não releva
o pecado que se guarda.
Enquanto o rico se farta
lá no luxo e ostentação,
o pobre sua na carpida
pra tirar o leite do chão.
Mas no cotejo da morte,
tudo pesa em precisão.
O sol racha a telha seca,
no calor canta o sertão.
A chuva que vem ligeira
vira gota em compaixão.
Rico não merca nuvem,
muito menos o trovão.
Minha avó já bem dizia
Com seu jeito de pensar:
arar vento não dá chuva,
nem mesmo se reclamar.
Vida mesmo é na labuta
sem contrato pra assinar.
Quando a jornada finda
e a vista fica embaçada,
não adianta a medalha
nem a pose doutorada.
O anjo olha e pergunta:
— Que fez na caminhada?
A conta chega já selada,
sem notícia nem perdão.
Rei, doutor e pé-rapado
detêm mesma condição.
O ego racha bem moído,
que nem milho no pilão.
Logo o pano baixa à força
e a terra chama pelo pé,
não há cofre que se feche
nem discurso que dê fé.
A vida cobra em silêncio:
carne com osso — como é.
FIM

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